Muito se tem elogiado São João Bosco – com quanta razão! – pela caridade heroica que o levou a sacrificar sua vida na formação da juventude carente, bem como por seu empenho na salvação das almas, meta última de suas atividades. A muitos outros títulos este Santo merece louvores, mas ele brilha especialmente por praticar uma virtude que é o fundamento de todas as outras: Dom Bosco foi acima de tudo um homem de fé. Não de uma fé inerte, mas ativa e operosa.

Uma das numerosas e eloquentes provas disto é o episódio narrado a seguir.[1]

Pânico ante uma peste letal e altamente contagiosa

Triste notícia recebeu a cidade de Turim em 25 julho de 1854: a epidemia de cóleramorbo ali fizera naquele dia suas primeiras vítimas. Proveniente da Índia, ela atingiu primeiro a Inglaterra, passou para a França e daí para a Península Itálica. Em dois meses matou cerca de três mil pessoas na cidade de Gênova. Na de Sassari, ceifou a vida de cinco mil dos seus vinte e três mil habitantes.

Não havia remédio eficaz para essa peste altamente letal e contagiosa, e isso aumentava o pânico da população. Ao constatar que alguém de uma casa fora atingido, vizinhos e até parentes fugiam espavoridos, abandonando a infeliz vítima. Houve médicos que, para salvar a própria pele, deixaram a cidade.

Após promulgar normas de precaução, o poder civil solicitou e obteve pronta colaboração do clero na luta contra o inimigo comum: camilianos, capuchinhos, dominicanos e oblatos de Maria se ofereceram para prestar assistência aos “colerosos”.

Nesse momento de emergência, a obra de São João Bosco estava longe de ser o que se tornaria alguns anos depois: o Oratório contava apenas com uma centena de adolescentes. Não sem grande preocupação, via ele a epidemia devastar toda a região em torno do Oratório, dizimando e, em certos casos, destruindo famílias inteiras.

O que poderia ele fazer?

“Garanto que nenhum de vocês será atingido pela cólera”

Tomou logo as medidas sanitárias cabíveis para preservar do contágio seus jovens. Mas não se limitou a isso. Prostrado aos pés da Medianeira de todas as graças, implorou: “Ó Maria, Mãe amorosa e potente, preservai estes meus amados filhos! E, se Deus quiser colher entre nós uma vítima, eis-me aqui pronto para morrer quando e como Lhe aprouver”.

São João Bosco, fotografado em 1878

Na festa de Nossa Senhora das Neves, reuniu todos os jovens, deu-lhes uma breve explicação e disse:

— Recomendo-lhes que cada um faça amanhã uma boa Confissão e uma Santa Comunhão, de modo que eu possa oferecê-los todos a Maria, pedindo-Lhe que os guarde e proteja como filhos diletíssimos seus. Vocês farão?

— Sim, sim! – responderam em uníssono.

— Se vocês estiverem todos na graça de Deus, sem cometer nenhum pecado mortal, eu lhes garanto que nenhum será atingido pela cólera – acrescentou o Santo.

Um convite ao heroísmo

Entretanto, o coração de Dom Bosco era grande demais para se contentar com a preservação dos seus. Vendo a epidemia alastrar-se cada dia mais e considerando a ­quantidade de almas que compareciam perante o Supremo Juiz sem o socorro dos Sacramentos, tomou uma decisão que só os Santos têm discernimento para assumir com acerto e segurança: lançar-se com seus filhos na penosa e arriscada obra de assistência àqueles infelizes.

Reuniu-os em inícios de agosto, descreveu-lhes a situação de abandono na qual se encontrava tanta gente atingida pela doença e manifestou o desejo de que eles o acompanhassem nessa obra de misericórdia. Quatorze aceitaram de imediato a proposta, poucos dias depois outros trinta seguiram seu exemplo.

Prostrado aos pés da Medianeira de todas as graças, implorou: “Ó Maria, Mãe amorosa e potente, preservai estes meus amados filhos!”

Antes de lançá-los no campo de batalha, Dom Bosco prescreveu-lhes sábias regras a seguir, de modo a sua ação ser eficaz para a salvação tanto dos corpos quanto das almas. Deu-lhes ensinamentos oportunos e úteis sobre como tratar os infectados. A tudo isso, acrescentou algumas sugestões relativas à assistência espiritual, a fim de que, na medida do possível, nenhum doente morresse sem os confortos da Religião.

Como dignos filhos de tal pai, puseram-se todos a campo: vários prestavam auxílio nos hospitais, alguns atendiam enfermos nas casas particulares, diversos outros exploravam os arredores à procura de doentes abandonados e um grupo permanecia de prontidão no Oratório, para atender qualquer emergência.

Dom Bosco superava a todos em dedicação

Logo se espalhou a notícia de que aqueles jovens eram excelentes enfermeiros. Resultado: os pedidos de socorro choviam de todos os lados, até mesmo do governo municipal. Mas eram pouquíssimos operários para uma imensa messe… Assim, a cada dia, diminuía seu tempo de repouso e de alimentação. Muitas vezes mal tinham tempo de comer um pedaço de pão, e outras vezes o faziam ao lado do infectado altamente contagioso. Alguns passavam noites de vigília para não deixar um doente sem assistência. Apesar de tudo, estavam sempre contentes e felizes!

Dom Bosco superava a todos em dedicação. Ocupava-se primordialmente de administrar os Sacramentos, mas não perdia ocasião de ajudar onde fosse necessário. Durante longo período teve apenas uma ou duas horas por dia para repousar, num sofá ou numa poltrona.

São João Bosco, fotografado em 1861, em Turim (Itália)

As precauções para evitar o contágio tornaram-se impraticáveis já no segundo ou terceiro dia de combate. Certa tarde, no hospital, um jovenzinho “acolitava” Dom Bosco, que ia de cama em cama administrando a Unção dos Enfermos. Ao ver isso, um médico o advertiu:

— Dom Bosco! Este jovem não pode estar aqui! O senhor não percebe que é uma grave imprudência?

— Não, não, senhor doutor. Nem ele nem eu temos medo da cólera. Fique tranquilo, não acontecerá nada – replicou o Santo.

A força da fé de um autêntico sacerdote

Com efeito, ele e os jovens do Oratório só tinham uma preocupação: aliviar os corpos e salvar as almas. De si mesmos, a Divina Providência cuidaria. Ela cuidou de fato, e muito bem! Durante três meses eles provocaram e afrontaram a epidemia. Ao longo deste tempo ela os circundou em todos os momentos, mas uma força invisível a impedia de atingi-los: todos atravessaram ilesos a grande tormenta.

De onde provinha essa força?

Da fé de um autêntico sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Notas

[1] Cf. LEMOYNE, Giovanni Battista. Memorie biografiche di Don Giovanni Bosco. San Benigno Canavese: Libraria Salesiana, 1905, v.V, p.75103.

 

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