Desejando dar um passo decisivo na vida espiritual, Dr. Plinio resolveu fazer uma novena a Santa Teresinha. Ela o atendeu fazendo-lhe encontrar o livro que seria o fundamento de sua espiritualidade marial: o “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”.

 

Tratado da verdadeira devoção a Santíssima Virgem

Enquanto cursava o último ano da Faculdade de Direito, Plinio se entreteve largamente com leituras sobre temas de doutrina católica, obtendo com elas notável proveito.

Iniciou esses estudos pelas famosas encíclicas de Leão XIII e, pouco depois, começaram a atraí-lo as obras de São Tomás de Aquino, de Santo Agostinho e de seus comentadores. Dentre os escritores católicos mais recentes, Joseph de Maistre, De Bonald, Blanc de Saint Bonnet, Louis Veuillot, Balmes, Donoso Cortés, Nocedal, Cathrein e Solaro di Santa Margherita, muito elogiados pela sua ortodoxia, também lhe proporcionaram abundante material, sobretudo aqueles que discorriam sobre os documentos pontifícios.

Em especial o livro Saggio di Diritto Naturale de Taparelli D’Azeglio, famoso jurista jesuíta, foi para ele motivo de enorme encanto, pela clareza e lógica com que trata sobre os princípios do Direito Natural.

Necessidade de construir amplas visões doutrinárias

Ao longo dos anos, a observação dos diversos aspectos do mundo que o cercava, bem como a análise de inúmeros acontecimentos do passado, se tinham constituído como um verdadeiro trabalho de síntese doutrinária e histórica, por ele aperfeiçoada na medida de sua própria maturidade, em cada uma das sucessivas fases de sua vida. E é evidente o papel absolutamente central, nessa súmula, dos ensinamentos da Santa Igreja e das impressões causadas pelas cerimônias religiosas ou pelo ambiente dos edifícios sagrados.

Ora, transposto o umbral dos vinte anos, apresentava-se diante dele um problema, com toda a precisão: “Até que ponto os elementos dessa síntese estavam efetivamente de acordo com a Igreja, e de forma mais específica com a Cátedra de Pedro, à qual eu votava uma veneração, um afeto e uma obediência sem limites? Essa pergunta, de fundamental importância, abriu para mim a era dos estudos doutrinários metódicos, para a qual as elucubrações de menino me haviam preparado”.

Assim, sentindo a necessidade de construir amplas visões gerais sobre os assuntos que eram objeto de suas meditações desde a infância, Plinio decidiu aprofundar seus conhecimentos, a fim de fazer a soma de três fatores: em primeiro lugar, diversas intuições ainda não explicitadas em sua totalidade, que ele agora desejava submeter ao crivo da razão sob a luz da doutrina; em segundo lugar, aquelas conclusões que ele já obtivera através da reflexão; e, por último, o ensinamento da Santa Igreja haurido do Sagrado Magistério e dos mencionados autores, com o qual Plinio desejava harmonizar todas as suas ideias, convicções e preferências.

Quando percebeu que esses autores, homens de inteligência eminente, haviam chegado às mesmas conclusões que ele em determinados pontos, sentiu respaldo em suas certezas e grande tranquilidade interior. Por outro lado, compreendeu existir inteira consonância entre os escritos deles e aquilo que em sua mente ainda permanecia implícito.

Aderindo com ênfase a tudo quanto lia, regalava-se ao verificar que tais teses pudessem ter sido explanadas com tanta força de pensamento: “Os autores demonstravam haver uma ordem tangível das coisas que, por uma espécie de dom de Deus, eu mais intuía do que era capaz de provar. Daí me vinha uma admiração pelos doutrinadores que tinham notado essa ordem”. Porém, à Igreja ele venerava de modo particular, e encantava-se acima de tudo com a sabedoria dela, que os inspirara.

Plinio numa fazenda do interior de São Paulo, em meados de 1930

Estudo e graças místicas

A beleza daquelas ideias lhe incutia um sentimento de piedade, como uma bonita imagem poderia fazê-lo ou como alguém poderia ter enquanto reza. Comentou ele, em outra ocasião, que só não osculava o livro por lhe parecer um gesto um tanto romântico e não poder ceder ao romantismo nem quando estivesse trancado num quarto. E, em função das graças recebidas nessa circunstância, explicitou: “Hoje em dia, sou levado a me perguntar se não havia algum complemento místico no modo de se apresentar ao meu espírito essa noção de ordem”.

Místico, sem dúvida, é o fenômeno ocorrido no interior de Plinio nesse período, ainda a propósito da leitura do tratado de Taparelli D’Azeglio. Ao deparar-se com determinadas citações das obras de São Tomás de Aquino, deslumbrado diante daquela sublime manifestação de lógica, ele discerniu claramente a mentalidade do Doutor Angélico, e de modo tão vivo que chegou a assimilar algo da inteligência deste e de seu método de pensamento, por uma espécie de “inalação da criteriologia que havia nele”.

As narrações de Dr. Plinio são explícitas e concludentes a esse respeito: sem ser objeto de nenhuma visão ou revelação, mas tendo sido galardoado desde a infância pelo dom do discernimento dos espíritos, recebeu ele então uma acentuada ­capacidade de compreender o método tomista da qual poderá utilizar-se ao longo de toda sua vida, pois lhe foi oferecida em caráter definitivo.

Porém, a fim de entender bem o significado do sucedido na ocasião, nada mais apropriado do que recorrer ao exemplo didático por ele utilizado: “Eu encontro uma imagem perfeita: alguém está a bordo de um navio com um amigo, o qual, tendo um binóculo, descreve uma série de coisas que o primeiro não vê. Ora, em certo momento esse amigo entrega o binóculo ao outro, que começa a ver o que não via antes, ‘apropriando-se’ de uma visão alheia. Assim também se deu com São Tomás: é como se algo da mente dele funcionasse à maneira de um binóculo que eu coloquei na minha. E isso não foi uma fulguração que passou, mas ainda hoje vejo a sua mentalidade e, através dela, entendo melhor o mundo. Se tenho um binóculo na mão, posso mantê-lo diante dos olhos ao longo de cinquenta anos…”

É oportuno recordar que algo semelhante já havia ocorrido no passado, quando o então pequeno Plinio, aluno do Colégio São Luís, sentira durante a aula, de modo inesperado, que havia recebido uma participação da mentalidade de Santo Inácio de Loyola. Entretanto, segundo suas próprias palavras, enquanto a lógica de Santo Inácio lhe parecia feita de fogo e efervescência, a de São Tomás era de tal modo serena que lhe dava a impressão de ser feita de cristal.

O desejo de ser mais santo

Foi também nesse último ano da Faculdade de Direito que se deu um episódio, o qual viria a ter consequências de fundamental importância para a formação espiritual de Plinio e marcaria a fundo sua história.

Ele já tinha tomado a resolução de dedicar sua existência ao serviço da Igreja e, inclusive, de não se casar; entretanto, analisando-se a si mesmo e percebendo quantos progressos havia feito, a ponto de se encontrar numa situação de auge em sua vida interior, sentiu-se descontente. Receava estar parado no caminho da perfeição e desejava dar um passo rumo a um patamar superior, entranhando-se ainda mais na devoção a Nossa Senhora. Em uma palavra, queria ser mais santo, mas não sabia o que fazer para consegui-lo.

Pensava ele que essa graça tão especial poderia vir, quiçá, através de algum bom livro de piedade. Porém, onde achá-lo? É preciso notar que ele tinha grande dificuldade em adaptar-se a certo estilo de literatura religiosa, em extremo adocicada e sentimental, frequente naquele tempo. Queria uma leitura séria e substanciosa, em que o sentimento ocupasse papel secundário, e a parte principal fosse dedicada ao mais importante, ou seja, à razão iluminada pela fé.

Santinho de Santa Teresinha pertencente a Dr. Plinio

Dois pedidos a Santa Teresinha

Plinio já havia adquirido o costume de rezar a Santa Teresinha do Menino Jesus, cuja recente canonização causara um extraordinário surto de fervor no mundo inteiro. E, dentre os muitos benefícios que lhe trouxera a leitura do livro História de uma alma, impressionara-o de modo especial o apêndice da obra, contendo a lista de alguns dos inúmeros favores recebidos pelos fiéis por intermédio dela. Assim, refletindo sobre o novo patamar que desejava atingir nas vias da santidade, resolveu iniciar uma novena a Santa Teresinha, cujo texto ele conhecera naqueles dias e o tocara a fundo. Pediria a sua intercessão para obter duas graças, das quais sentia muita necessidade.

Em primeiro lugar, que lhe indicasse de forma clara qual era o meio de avançar com vigor na devoção a Nossa Senhora, dando um passo decidido e fundamental, e, portanto, lhe fizesse encontrar o livro que ele procurava, próprio a marcar uma vida.

A segunda intenção era muito diferente: Plinio estava em difícil situação financeira, cujo aspecto mais doloroso consistia na incerteza quanto ao futuro de Da. Lucilia, sua mãe. Por isso, tendo ouvido contar que iria correr em São Paulo uma loteria, com prêmio de quatrocentos contos de réis, quantia suficiente para ajudar no sustento de uma família abastada, pedia também a Santa Teresinha a graça de ganhá-la. Não desejava propriamente se tornar rico, mas sim manter uma posição folgada e estável, sem preocupações financeiras ou profissionais e, em consequência, poder se dedicar por inteiro ao apostolado.

Então, ele comprou o bilhete de loteria e começou a rezar nessas intenções. Curiosamente, pensava que o mais importante dos dois pedidos era a obtenção do dinheiro, por uma simples razão: era aquele cuja realização se apresentava menos provável, uma vez que as livrarias católicas regurgitavam de bons livros, enquanto nunca se ouvira dizer que um jovem de sua idade, em São Paulo, tivesse enriquecido por meio de um prêmio na loteria.

“O livro de minha vida”

A novena estava em seus últimos dias quando Plinio, ao sair da Igreja do Imaculado Coração de Maria, aonde havia ido comungar, decidiu visitar a livraria da Editora Ave-Maria, pertencente aos padres cordimarianos e situada nos fundos da mesma igreja, com o intuito de encontrar uma leitura espiritual que o agradasse. Folheando alguns livros, sua atenção foi atraída em especial por dois. Um deles, de cujo título nunca se lembraria depois, era mais grosso e de agradável aspecto; enquanto o outro era pequeno, fácil de levar no bolso e muito bem encadernado, impresso em preto e vermelho: era o Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, escrito por um autor do qual ele jamais ouvira falar, apesar de ser um Bem-aventurado: Le Bienheureux Louis-Marie Grignion de Montfort.

Sentiu-se inclinado a comprar o primeiro, mas sua hesitação foi de curta duração: acabou escolhendo o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem pela apresentação gráfica, por ser escrito em francês e, acima de tudo, por tratar a respeito de Nossa Senhora. Perguntou quanto custava e, após verificar que o livrinho era baratíssimo, acessível aos seus parcos recursos, mandou embrulhá-lo, pagou-o e o levou para casa. Narrando o episódio mais tarde, ele afirmaria: “Eu não percebia que Santa Teresinha estava guiando o meu braço”.

No dia seguinte de manhã, em seu horário habitual de meditação, Plinio abriu o Traité sem muita esperança, pois não tinha nenhuma certeza de ser esse o livro obtido por Santa Teresinha.

Segundo seu costume, dispôs-se a começar a leitura em qualquer página, do meio para o fim, e depois ler o começo. Qual a razão de tal hábito? Ele mesmo o explica: parecia-lhe que os livros se tornam mais interessantes quando o leitor tem algo para adivinhar, não apenas a respeito do que os autores dizem, mas também das suas intenções. Então, lendo-os a partir da metade ele podia conjecturar como seria o início, o que dava certo sabor de novidade, que muito lhe agradava.

São Luís Maria Grignion de Montfort, por Claude Lavergne – Saint-Laurent-sur-Sèvre (França)

Entretanto, no caso do Tratado da verdadeira devoção, ao ler uma ou duas páginas Plinio se deteve encantado e pensou: “Não, este livro não se pode ler assim. Tem de ser desde o começo, pois é de alto quilate! É absolutamente o que eu queria!” E enquanto prosseguia a leitura, sem perder uma letra e tomado de extraordinário entusiasmo, “de aclamação em aclamação”, ia concluindo ser a obra de São Luís Maria Grignion de Montfort incomparável, portentosa e baseada na melhor Teologia; aprofundava ela com largueza a doutrina sobre Maria Santíssima, de maneira a dar elevadíssima noção do papel d’Ela na ordem do universo.

Recordaria Dr. Plinio: “Durante a leitura, eu às vezes parava e dizia: ‘Parece que esse homem está falando! Ele morreu há séculos, mas eu julgo sentir o impulso, a propulsão da alma dele no que ele diz aqui!’” Ao lê-lo, foi aprendendo na concordância eufórica de sua alma. Nunca pensou poder um livro exercer sobre alguém o efeito que aquele produziu sobre si. E ponderou: “Encontrei o livro de minha vida!”

Um estudo cheio de fervor

Ao longo dos dias subsequentes, a leitura do Tratado foi se tornando um verdadeiro estudo, sério e profundo. A fim de obter uma visão global da matéria, Plinio analisou parte por parte com vagar, tomou notas e o resumiu, tarefa que lhe foi facilitada pelo costume adquirido na Faculdade de Direito. E a tal ponto assimilou tudo quanto lia, que chegou a compor uma grande ladainha para seu uso pessoal, anotando-a em aproximadamente dez folhas pequenas, algumas das quais manuscritas, com todos os títulos e invocações de Nossa Senhora enumerados na obra e por ele traduzidos ao português.

Assim, todos os seus comentários futuros sobre aquilo que nessa ocasião aprendeu da espiritualidade marial de São Luís Grignion de Montfort seriam proferidos ex abundantia cordis, fruto de uma aplicação do intelecto repleta de amor. Ele percebeu que o livro podia dar aos que o meditassem a exata ideia de quem é Maria Santíssima e qual o cúmulo de sua grandeza inefável, sua bondade e sua misericórdia, bem como do valor de sua intercessão.

 

Extraído, com adaptações, de:
“O dom de sabedoria na mente, vida e obra de Plinio Corrêa de Oliveira”.
Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2016, v.II, p.159-169

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