Tendo por base os dados da Escritura, os vinte séculos de reflexão teológica da Igreja e algumas revelações particulares selecionadas, Mons. João enaltece, em sua mais recente obra, o papel corredentor de Maria na Paixão de seu Divino Filho.

 

Nenhuma grande obra pode o homem realizar sem antes a ter premeditado em seu interior. A fortiori a Redenção, ato eminentemente divino, foi concebida primeiro pelo Homem-Deus em seu Coração. Nesse íntimo santuário Ele experimentou todos os desprezos, angústias e humilhações, e os desejou por inteiro. Só então, “como guerreiro com vontade de lutar” (Is 42, 13), lançou-Se na gloriosa gesta para a qual viera ao mundo. Esta se iniciaria na Santa Ceia com a afetuosíssima despedida dos seus prediletos.

É eloquente o contraste entre as cataratas de amor divino manifestado por Nosso Senhor nesse sublime mistério e o estado de alma em que se encontravam os Apóstolos. Sim, antes mesmo de sentir o peso árduo do madeiro, Jesus experimentaria em seu Sagrado Coração a frieza daqueles com os quais convivia de perto e a quem mais especialmente fizera o bem. E não apenas a frieza: também a indiferença e até a inveja, a revolta e o ódio O afligiriam, como a terrível traição de Judas o demonstra.

Prova semelhante assaltaria Nossa Senhora ao adentrar nesses dias doloridos e grandiosos: a dura impressão de que tanto os Apóstolos quanto o próprio Céu assistiriam àquele drama sem externar oposição alguma, numa atitude de neutralidade. Essa ausência de sensibilidade Lhe causaria provações inenarráveis, como se verá a seguir. Todavia, por sua fidelidade sem jaça Ela Se constituiria de forma eminentíssima, enquanto associada em plenitude à Paixão de seu Filho, na Corredentora do gênero humano.1

Na despedida, o convívio mais sublime

Pelo amor infinito que devotava à sua Santíssima Mãe, Nosso ­Senhor não quis privá-La da participação naqueles momentos memoráveis, e A convidou para passar a Páscoa com Ele em Jerusalém.

Todos os Apóstolos se reuniram no Cenáculo para a ceia. Maria estava numa sala anexa com algumas das Santas Mulheres, acompanhando em seu Imaculado Coração tudo o que ocorria no recinto principal com seu Filho. O auge da comemoração seria a instituição da Sagrada Eucaristia, mistério revelado a Ela e a São José por seu Filho durante os colóquios nos anos da infância. Desde então Maria ansiava por receber esse Sacramento e para ele Se preparou mediante inúmeras Comunhões espirituais.

Que gáudio experimentou quando Nosso Senhor, depois de ter comungado a Si próprio,2 dirigiu-Se à sala da qual Ela acompanhava discretamente o sublime desenrolar daquele convívio e deu-Lhe o pedaço de Pão transubstanciado em seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade… Na Última Ceia, Maria foi a primeira a comungar das mãos de Jesus! E a partir daquele instante as Sagradas Espécies nunca se consumiriam em seu interior,3 permitindo que Ela participasse, de maneira mística e muito particular, da Paixão de seu ­Divino Filho.4

“É chegada a hora”

Bem se compreende a dor que acometeu Maria quando, a certa altura da ceia, Judas levantou-se para consumar a traição entregando o Divino Filho d’Ela ao Sinédrio. Nossa Senhora rezou para que aquele infeliz se arrependesse do mal que estava para praticar, mas ele não correspondeu à voz da graça e submergiu nas trevas que dominavam Jerusalém.

Tendo o traidor se retirado, ­Nosso Senhor proferiu o sublime discurso de despedida recolhido pelo Discípulo Amado em seu Evangelho (cf. Jo 14–17), ao término do qual todos se levantaram a fim de tomar o caminho rumo ao Horto das Oliveiras. O Divino Mestre dirigiu-Se até Nossa Senhora e, fitando-A com extrema doçura, disse-Lhe parafraseando as palavras que pronunciara ante seus ­prediletos: “Mãe, é ­chegada a hora” (cf. Jo 17, 1), hora temida de Ele sofrer sua dolorosa Paixão. Antes de partir, perguntou-Lhe se consentia naquela imolação.

Maria conhecia perfeitamente o plano de Deus a respeito da Redenção, mas o imolado seria seu próprio Filho… Quanto Ela desejaria estar em seu lugar, para poupar-Lhe aqueles horrores. Entretanto, uma vez mais pronunciou decidida seu “fiat”, sentindo a espada de dor se aproximar para perfurar sem clemência seu Coração Imaculado, conforme ­Simeão profetizara no dia da Apresentação no Templo (cf. Lc 2, 35).

A Virgem Puríssima permaneceu no Cenáculo. Retirada em uma das dependências do prédio, começou a acompanhar misticamente o Salvador, pois tudo o que Lhe sucedia repercutia n’Ela de maneira inefável, em função da Presença Eucarística que palpitava no seu sagrado peito. Soara o momento marcado pelo Pai para que Ela iniciasse sua participação efetiva na Redenção.

São Gabriel, detalhe da Anunciação, por Fra Angélico –
Instituto de Artes de Detroit (Estados Unidos)

O mais “doloroso” ministério angélico

Quando a Paixão estava prestes a se iniciar, o Altíssimo chamou São Gabriel à sua presença. Além de ordenar-lhe que impedisse o demônio de aproveitar as circunstâncias para atentar contra a integridade física de Nossa Senhora, mostrou-lhe os tormentos que Jesus sofreria, incumbindo-lhe, enquanto guardião e representante divino junto a Maria, de obter para cada um deles seu consentimento. O Arcanjo achou-se, pois, na contraditória contingência de, sem abandonar a missão de defendê-La, ser ao mesmo tempo o portador da espada destinada a atravessar seu dulcíssimo Coração!

Iniciou-se então um duríssimo diálogo interior, que duraria toda a Paixão. Ao ser-Lhe apresentado por São Gabriel cada sorvo do cálice, Nossa Senhora o analisava, aceitando o padecimento que Lhe causaria e oferecendo-o a Deus, e prestava sua profunda e puríssima anuência a fim de que aquele tormento se efetivasse em Jesus. Nenhuma gota de sangue, nenhuma ferida, nenhum impropério escapou a essa suprema regra imposta pelo Padre Eterno para o desenvolvimento do martírio do Homem-Deus. Pode-se dizer que Maria padeceu duplamente – primeiro, no campo místico; depois, no físico – para que, de alguma forma, seu Filho sofresse um pouco menos…

Da modorra à fuga

Enquanto esse sublime e doloroso diálogo se iniciava, o Divino Redentor chegou com seus discípulos ao Horto das Oliveiras. Ali convidou São Pedro, São João e São Tiago a acompanhá-Lo e Se afastou para rezar, tomado por “uma tristeza mortal” (Mc 14, 34).

Prosternado com o rosto em terra, teve conhecimento experimental dos sofrimentos pelos quais ­deveria passar, padecendo por antecipação na Alma as dores que se dariam em sua carne santíssima. A isso se acrescentou a visão da ingratidão dos homens ao longo da História. Eles pisariam com desprezo o Preciosíssimo Sangue prestes a ser derramado com loucura de amor. Jesus media a aparente inutilidade desse sacrifício e sua angústia aumentava, agravada pelo desinteresse daqueles três prediletos que haviam caído num pesado sono, fruto do egoísmo ainda inviscerado em suas almas.

Nossa Senhora sentia grande aflição por perceber que Jesus sabia do consentimento d’Ela a tais tormentos, o que causava à sua natureza humana, dotada de perfeitíssimo espírito filial, a sensação de ter sido abandonado por sua Mãe. Essa tentação persistiria de diversos modos durante a Paixão como uma de suas maiores dores.

Amargurado em extremo, ­Nosso Senhor suplicou: “Pai, se é de teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22, 42). Vendo Maria os sofrimentos que seu Filho padeceria, associou-Se a esse pedido. E seu clamor foi atendido: um Anjo entregou a Jesus um cálice, cujo misterioso líquido deu-Lhe forças para continuar.

“Levantai-vos, vamos! Aquele que Me trai está perto daqui” (Mt 26, 46), exclamou aos três escolhidos submersos num sono de torpor e tristeza. Ao aviso do Mestre eles acordaram sobressaltados, pois já se escutava o forte rumor da multidão que se acercava para prendê-Lo. Os Apóstolos e discípulos fugiram, opressos pelo medo. Apenas São João não abandonaria Jesus, mas cumpriria eximiamente sua missão de acompanhar Maria Santíssima durante a Paixão.

Emitida a sentença, o Sinédrio devia ratificar a condenação junto ao poder romano, pois não possuía direito à execução dos réus. Despontava o Sol no horizonte e era preciso levar Jesus ao Pretório.

A Última Ceia, por Fra Angélico – Museu de São Marcos, Florença (Itália)

O Santo foi escarnecido

Os Evangelhos nos narram que, embora Pilatos, convicto da inocência de Nosso Senhor, não acreditasse nas falsas incriminações contra Ele e estivesse decidido a soltá-Lo, a insistência dos acusadores fez aflorar sua covardia e o governador romano consentiu em ­castigá-Lo.

Com as mãos atadas, Jesus foi levado aos empurrões para ser flagelado e, “maltratado […] como um cordeiro que se conduz ao matadouro, […] não abriu a boca” (Is 53, 7). Os carrascos O despiram, ataram-No a uma pequena coluna e açoitaram-No com inaudita crueldade. Quando os açoites atingiam o sagrado Corpo de Jesus, Maria sentia os mesmos golpes em seu Coração, sofrendo a ponto de quase desfalecer.

Como Nosso Senhor havia revelado sua realeza, quiseram também debochar d’Ele especificamente a propósito desse ponto. Em outra dependência do palácio, aqueles homens brutalizados O vestiram com o manto purpúreo da irrisão e fizeram com Ele o que lhes aprouve: deram-Lhe tapas, cuspiram em seu rosto, empurraram-No para que caísse ao chão. A maldade chegou ao auge quando, numa paródia de coroação, puseram em sua cabeça uma espécie de capacete tecido com ramos repletos de enormes espinhos.

Nesse momento o terrível diadema fincou-se de forma ­mística no Coração de Maria, fazendo-Lhe experimentar as mesmas dores e humilhações de seu Divino Filho.

A caminho do Calvário

Crucifixão – Museu de Belas Artes, Córdoba (Espanha)

Nem o dilacerante espetáculo do Ecce Homo comoveu os corações do populacho instigado por seus chefes. Temeroso de ver comprometido seu prestígio ante o augusto imperador, Pilatos condenou o Inocente.

Quando a Cruz Lhe foi apresentada, Jesus A tomou com emoção, ­osculou-A e apressou-Se em pô-La sobre os ombros para encetar o caminho do Calvário. A multidão ao seu redor soltava gritos dignos do inferno; muitos riam, atiravam-Lhe pedras ou O empurravam para que caísse com a Cruz, enquanto os soldados açoitavam-No continuamente.

Em meio a esse tumulto, ­Nossa Senhora percorria as ruas de Jerusalém tentando acompanhar de perto seu Jesus. Quando viu que seu Filho, oprimido pelo peso da Cruz, caíra pela primeira vez com o rosto em terra, correu para junto d’Ele a fim de consolá-Lo. Nesse instante, não só os Anjos e os homens, mas todo o universo parou para contemplar uma das cenas mais comovedoras da História: o encontro da Mãe com o Filho jacente sob o lenho.

Ao Se levantar, tendo a face toda ensanguentada, Ele A fitou com olhar de pungente dor e doçura. A adoração da Virgem, pervadida de veneração e de ternura, era um precioso bálsamo que aliviava o Coração do Redentor e Lhe conferia forças para seguir seu caminho! Outras quedas do adorável Filho de Maria se seguiram durante o caminho do Calvário, mas Ela sabia que não mais devia intervir, por vontade divina.

A primeira estigmatizada

Quando Jesus chegou ao alto do Calvário, deitou-Se mansamente sobre a Cruz, indicando sua disposição de ser nela pregado. Seguiu-se então uma horrível cena. Um soldado tirou de uma bolsa os cravos, segurou o braço esquerdo de Jesus e tomou o martelo para fincar o primeiro prego. A Santíssima Virgem sentiu que não poderia resistir a esse lance e virou o rosto. O som daquelas batidas e os suaves gemidos de seu Divino Filho repercutiram de forma crudelíssima no Coração materno de Maria, que tremeu violentamente.

Para pregar o braço direito de ­Jesus, cujos músculos haviam se contraído em virtude da perfuração do outro braço, os algozes tiveram de esticá-lo com tanta força que a mão esquerda ameaçava rasgar ou se desarticular. Por fim, ao cravarem os dois pés, as dores experimentadas por Nossa Senhora atingiram tal auge que não há palavras no vocabulário humano para descrevê-las!

Pode-se dizer que Maria Se antecipou a todos os Santos da História que receberam os estigmas da Paixão, se bem que n’Ela se tratasse de um fenômeno estritamente espiritual, de tal modo sofreu com seu Filho por aquelas chagas.

A firmeza de Maria

Do alto da Cruz, Jesus contemplava a multidão que O rodeava e, no centro, sua Mãe. Com indizível compaixão Ela permanecia de pé (cf. Jo 19, 25), tendo ao seu lado São João. Não seria mais belo se Maria estivesse prosternada ou ajoelhada? Não, porque Ela participava daquela imolação. Sua postura significava que vivia a Paixão junto com seu Filho, enquanto sócia privilegiada da Redenção.

A atitude de Nossa Senhora constituiu uma grande consolação para o Homem-Deus: sua compaixão O fortalecia, suas lágrimas suavizavam-Lhe o Sagrado Coração, sua firmeza O animava a prosseguir até o fim. N’Ela via a perfeita correspondência a tudo o que havia dado à humanidade desde a Encarnação. N’Ela seu Sangue rendia frutos em plenitude. Mas, sobretudo, no Imaculado Coração de Maria encontrava refletida sua própria Paixão! Ambos os Corações, que formam um só, foram juntos cravados na Cruz.

Nesse auge de dor Jesus olhou com carinho para Maria e, assinalando o discípulo que A amparava, disse-Lhe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 26). E, em seguida, entregou-A como Mãe a São João: “Eis aí tua Mãe” (Jo 19, 27). Sua intenção era clara e indicava a profunda relação materna que Ela teria com todos os eleitos.

O mistério do abandono de um Deus

Ao chegar o meio-dia, nuvens espessas começaram a cobrir o firmamento, o Sol se escureceu e fez-se noite. A solidão se intensificou em torno de Jesus e a Ele se apresentaram as últimas e mais lancinantes tentações.

Quando o Leão de Judá bradou em alta voz “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46), manifestou que passava pelo pior dos sofrimentos: sentir-Se abandonado por Deus! Trata-se de um mistério incompreensível até mesmo para os Anjos pois, sendo Deus, como Ele poderia Se sentir por Deus abandonado? A isso se uniu a perplexidade de julgar-Se em certa medida abandonado por Nossa Senhora, embora tivesse a plena certeza de que Ela jamais O trairia.

Sofrimentos inenarráveis invadiram a alma santíssima de Maria nesse lance derradeiro. Seu supremo padecimento consistia em sentir a própria axiologia rachada ao discernir no divino olhar do Filho essas provações, não poder Se aproximar para consolá-Lo, para atenuar suas dores, para assegurar-Lhe que nem Deus nem Ela O haviam desamparado, e ainda ter de consentir no contrário. A Mãe Dolorosa, porém, soube esperar contra toda esperança, confiar no absurdo, avançar em meio ao desmentido.

Sepultamento de Cristo, por Fra Angélico – Museu de São Marcos, Florença (Itália)

“Consummatum est”

Por fim, quando Nosso Senhor percebeu que havia chegado sua hora, exclamou: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). E, depois de dar um dolorido brado que ecoou por todo o universo, concluiu com suave tom de voz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Inclinando a cabeça, expirou.

Consumida pelo infortúnio e vertendo preciosas lágrimas, por muito pouco Nossa Senhora não perdeu os sentidos ante a consumação do divino holocausto. Mais uma vez, porém, Ela permaneceu de pé ao lado da Cruz, como um estandarte vitorioso a proclamar a fé nas glórias da Ressurreição.

Deus Pai pediria ainda a Nossa Senhora um sacrifício final. Quando no divino Corpo não restava mais Sangue a ser derramado pela Redenção dos homens, Longinos feriu com sua lança o costado adorável de Jesus, transpassando o Sagrado Coração e, em consequência, também o Coração Imaculado de Maria. As lágrimas vertidas por Maria com essa dor derradeira uniram-se ao Sangue e à linfa do Salvador, fazendo nascer a Santa Igreja.

Corredentora do gênero humano

Tendo contemplado nos mais variados aspectos a compaixãosofrer com, em seu sentido etimológico – de Nossa Senhora, compreendemos a magnitude da cooperação d’Ela no mistério da Redenção, eminente entre todas e até, por soberana vontade divina, necessária.

A Cruz, consolo para os católicos de todos os tempos, foi a maior dor de Maria. Se é verdade que ­Nossa Senhora não sofreu fisicamente – no que se refere a seu corpo virginal, sem atentar para sua finíssima sensibilidade –, Ela suportou uma plenitude de padecimentos de alma inatingível por qualquer criatura humana.

Mais ainda, Ela penetrava na alma de seu Divino Filho e discernia a imensidade do seu sofrimento ao pesar os pecados da humanidade decorrentes da rejeição de tantos tormentos. Desejando amenizar ao máximo essa dor, em seu amor materno pelo gênero humano Ela pediu por todos os que viriam, juntando suas preces e lágrimas ao Preciosíssimo Sangue redentor. Por isso se pode afirmar com segurança que os benefícios por nós recebidos no plano da graça foram também conquistados pela Mãe Lacrimosa.

Dr. Plinio em 1983

Outro aspecto a se considerar a respeito da participação de Nossa Senhora na Paixão parte de uma realidade mencionada no início deste artigo. Quando Ela comungou na Santa Ceia, as Sagradas Espécies se mantiveram em seu interior e nunca mais A abandonaram. Com a Morte de Jesus operou-se um mistério profundo, que nossa inteligência não alcança: apesar da separação entre a Alma e o Corpo, ambos continuaram unidos à divindade na Pessoa do Verbo. Ora, esse fenômeno se deu na Eucaristia que estava em Maria, de maneira que não só toda a Paixão, mas inclusive a Morte de Nosso Senhor, verificou-se dentro d’Ela.

Sobre esse particular observa muito acertadamente Dr. Plinio: “Isso forma um contraste lindíssimo e afirma, de um modo tão glorioso que não há palavras para qualificar, a vitória de Nosso Senhor sobre o demônio porque, durante a Paixão, Ele estava atado à coluna, carregando a Cruz, crucificado e até morrendo, mas, ao mesmo tempo, encontrava-Se no Paraíso d’Ele, que é Nossa Senhora, e assim triunfava em meio à derrota”.5

Ponderadas essas razões, o ­Autor eleva seu pedido a Nosso Senhor Jesus Cristo pela chegada do dia em que a Igreja, na sua infalibilidade, declare solenemente o dogma da Corredenção da Santíssima ­Virgem.

 

Extraído, com adaptações, de:
Maria Santíssima! O Paraíso de Deus revelado aos homens.
São Paulo: Arautos do Evangelho, 2020, v.II, p.451-492

 

Notas

1 A respeito da participação de Nossa Senhora na Redenção, declara Bento XV: “Os Doutores da Igreja ensinam comumente que a Santíssima Virgem Maria, que parecia ausente na vida pública de Jesus Cristo, por divina disposição esteve ao seu lado quando Ele foi morto e pregado na Cruz. Em comunhão com seu Filho sofredor e agonizante, suportou a dor e de certo modo morreu com Ele; renunciou aos direitos maternos sobre seu Filho para a salvação dos homens; e, para aplacar tanto quanto podia a justiça divina, imolou seu Filho, de sorte que se pode afirmar com razão que, com Cristo, Ela redimiu o gênero humano” (BENTO XV. Inter sodalicia: AAS 10 [1918], 182). No mesmo sentido se expressam Pio XI: “A augusta Virgem, concebida sem a mancha original, foi escolhida como Mãe de Cristo precisamente para tomar parte na Redenção do gênero humano” (PIO XI. Auspicatus profecto: AAS 25 [1933], 80); e Pio XII: “Foi Ela, a Imaculada, isenta de toda a mancha original ou atual, e sempre intimamente unida com seu Filho, que, como outra Eva, juntamente com o holocausto dos seus direitos maternos e do seu materno amor, O ofereceu no Gólgota ao Eterno Pai por todos os filhos de Adão […]. Ela finalmente, suportando com ânimo forte e confiante imensas dores, verdadeira Rainha dos mártires, mais que todos os fiéis, ‘completou o que falta à Paixão de Cristo… pelo seu Corpo que é a Igreja’ (Col 1, 24)” (PIO XII. Mystici Corporis Christi, n.106: AAS 35[1943], 247-248).
2 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.81, a.1.
3 É doutrina comum entre os mariólogos mais conceituados que Nossa Senhora recebeu, em grau eminentíssimo, todas as graças outorgadas aos Santos no decorrer da História e que convinham a Ela. Esse princípio parece confirmar a concessão da permanência eucarística à Virgem Santíssima (cf. ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santísima. 4.ed. Madrid: BAC, 1956, p.687-688; GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. La Mère du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948, p.135-136).
4 Como explica São Tomás, na Eucaristia o Corpo de Jesus se encontra tal como Ele o possui no momento, de modo que os participantes da Sagrada Ceia foram os únicos a comungá-lo em estado padecente (cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., a.3).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 18 abr. 1981.

 

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