São Cirilo de Alexandria, Patriarca dessa famosa cidade egípcia, então pertencente ao Império Romano, afirma que na época de Nosso Senhor Jesus Cristo o demônio era adorado na terra inteira: “Satanás dominava sob o céu. Tinha a todos submetidos e não havia quem pudesse fugir dos seus laços opressores”.[2] Havia tal quantidade de templos dedicados aos demônios que resultava impossível contá-los. E, pior, não faltavam pessoas que lhes oferecessem sacrifícios.

Ora, terá acontecido esse horror apenas quando Deus Se encarnou para redimir o gênero humano? Ou houve em outros períodos da História situações análogas?

Basta folhar algumas páginas das Sagradas Escrituras para encontrarmos resposta.

Dois profetas anunciam o castigo ao povo eleito

Há no Antigo Testamento um profeta, pouco conhecido, que põe em evidência o quanto a adoração ao demônio acarretou a manifestação da cólera divina em seu tempo.

Baruc, que em hebraico significa bendito, era secretário de Jeremias. Ambos profetizaram que, se o povo eleito não se convertesse, o Senhor lhe enviaria um castigo. E, como não houve emenda de vida, Deus cumpriu a ameaça: no ano 586 a.C., Jerusalém foi destruída e muitos tiveram de ir para o Egito, enquanto outros foram deportados para a Mesopotâmia.

Depois de quatro anos em terra estrangeira, o povo havia se dispersado e alguns começavam a vacilar na fé. Então o profeta Baruc dirigiu-se à Babilônia para lhes re-afervorar com uma mensagem de Jeremias. Um ano mais tarde, retornou a Jerusalém a fim de consolar um reduzido grupo de fiéis que permanecia na cidade, levando alguns vasos sagrados e uma coleta de donativos, ocasião em que lhes leu o seu livro.[3] A essa triste situação estavam reduzidos os filhos de Deus!

Jeremias havia enviado Baruc não só com o intuito de mandar-lhes uma ajuda financeira, mas para lhes recordar a Lei. Ao emissário cabia, sobretudo, exortar o povo a praticar os Mandamentos Divinos. Eis a principal missão dos profetas.

Sacrificavam criancinhas vivas aos demônios

Diante desse panorama trágico, uma pergunta pode surgir ao leitor: por que Jerusalém, cidade dos eleitos, foi destruída?

O mesmo profeta Baruc nos oferece a resposta: “Havíeis exasperado vosso Criador, ofertando sacrifícios aos demônios e não a Deus. Esquecestes o vosso Criador, o Deus eterno, e contristastes Jerusalém, vossa nutriz. Esta viu precipitar-se sobre vós a ira divina, e clamou: Escutai, vizinhas de Sião! Fez-me Deus suportar cruel tormento” (Br 4, 79).

Portanto, a Cidade Santa foi destruída, entre outras razões, porque o povo sacrificava aos demônios e tal pecado desgostou o Senhor. Mas será esse o único profeta a relatar que, no Antigo Testamento, as pessoas chegaram a adorar o demônio?

Ai daqueles cujos nomes não estiverem inscritos nos Céus pois, quando Deus enviar o castigo para punir quem tiver adorado os deuses falsos, eles, sem dúvida, soçobrarão

Outros trechos das Sagradas Escrituras também denunciam essa prática detestável (cf. Dt 32, 17; Sl 105, 3738; Is 57, 313; Jr 32, 35; Ez 23, 37). Entre os ídolos daqueles tempos contava-se Moloc, “deus” dos amonitas. Tratavase de uma estátua de bronze, com corpo humano e cabeça que variava entre touro e leão, em cujo peito havia uma cavidade repleta de brasas incandescentes, onde se jogavam criancinhas vivas como sacrifício ao demônio (cf. Lv 20, 3; II Rs 16, 3; 17, 17; 21, 6).

E Ezequiel, um dos quatro profetas maiores, descreve no seu capítulo oitavo uma abominação ainda maior…

Cultos satânicos no Templo de Deus

Ezequiel narra que estava em casa com alguns anciãos de Judá, quando viu repentinamente uma silhueta luminosa, a qual do ventre para baixo parecia de fogo. Era o próprio Deus que vinha até ele.

O Senhor agarrou-o pelos cabelos e o conduziu à Cidade Santa, onde o profeta pôde divisar a estátua de um demônio na porta do Templo do Deus verdadeiro: “O espírito levantou-me entre o céu e a terra, e me levou a Jerusalém, em visões divinas, à entrada da porta interior que olha para o norte, lá onde se erige o ídolo que provoca o ciúme do Senhor” (Ez 8, 3).

Ezequiel assustou-se, mas Deus o advertiu de que ainda contemplaria cenas piores: “Filho do homem, disse-me, vês tu a abominação que praticam, como eles procedem na casa de Israel, para que Eu Me afaste do meu santuário? Verás, todavia, coisas muito mais graves” (Ez 8, 6).

Levou-o então até a entrada do pátio, em cujo muro havia uma abertura. Eles a atravessaram e se depararam com uma porta secreta. Ao transpô-la, Ezequiel viu-se em uma sala repleta de figuras de animais peçonhentos e de pinturas de ídolos em volta das paredes. Setenta anciãos de Israel os adoravam, cada um com seu turíbulo nas mãos!

Continua a narração: “Filho do homem, disse-me Ele, vês tu o que fazem os anciãos de Israel na obscuridade, cada um deles em sua câmara, guarnecida de ídolos, pensando que o Senhor não os vê, e que Ele abandonou a terra? E ajuntou: Verás ainda abominações mais graves que eles estão cometendo” (Ez 8, 12).

Espanta-nos pensar que, assim como nós incensamos o altar e o livro da Palavra de Deus durante as Santas Missas, eles ofereciam incenso aos demônios!

Entre o vestíbulo e o altar…

Em seguida, Deus o levou a uma porta que ficava na parte norte da construção. Quando entrou, Ezequiel se deparou com algumas mulheres que choravam por Tamuz, um ídolo da Mesopotâmia.

Uma vez mais o profeta se assustou, e Deus disse que o faria ver coisas piores no interior do Templo. Então o conduziu ao centro do edifício sagrado, entre o vestíbulo e o altar, lugar reservado aos sacerdotes. Ali encontrou vinte e cinco homens.

Seriam mesmo sacerdotes? Provavelmente sim. Contudo, em vez de adorar o Deus verdadeiro, eles cultuavam o Sol que nascia…

Transcreve Ezequiel as palavras de Deus após mostrar-lhe essas cenas: “Filho do homem, disse-me Ele, vês isto? Não basta à casa de Judá entregar-se a esses ritos abomináveis que aqui se praticam? Haverá ainda ela de encher a terra de violência, e não cessará de Me irritar? Ei-los que trazem o ramo ao nariz. Está bem! Eu, de minha parte, procederei com furor, não terei condescendência, serei impiedoso. Inutilmente clamarão a meus ouvidos, não os ouvirei” (Ez 8, 1718).

São esses alguns exemplos, tirados das Sagradas Escrituras, de como as pessoas podem chegar a adorar os demônios até no Templo de Deus.

A Jerusalém do Novo Testamento

A Santa Igreja é chamada metaforicamente de Nova Jerusalém. Haverá nela quem, em nossos dias, lance incenso aos ídolos ou ofereça sacrifícios a demônios sanguinários como Moloc? Deus nos livre e guarde de que isso em algum momento aconteça!

Existe, entretanto, uma forma mais sutil de praticar a idolatria e prestar culto ao inimigo do gênero humano, e esta, sim, encontra-se muito difundida entre nós…

Cada vez que cometemos um pecado mortal, além de nos vermos privados da graça e da amizade com Deus, nos tornamos escravos do demônio.[4] Ele passa a imperar em nossas almas.

Como nos libertarmos desse pesado e infecto jugo do príncipe das trevas?

“Deulhes poder e autoridade sobre todos os demônios”

Com a Encarnação, Nosso Senhor Jesus Cristo quebrou o domínio dos infernos e conferiu aos Apóstolos potestade para, em seu nome, expulsar os anjos decaídos – superiores aos homens na ordem da natureza – e lançá-los no inferno: “Reunindo Jesus os doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades. Enviou-os a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos” (Lc 9, 12).

São Lucas ainda traz a lume o envio dos setenta e dois discípulos em missão (cf. Lc 10, 116) e ressalta sua alegria ao retomarem o convívio com o Divino Mestre e relatarem o que haviam feito: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (Lc 10, 17). Com efeito, o domínio sobre os espíritos maus “não só tinha um espetacular efeito diante dos outros, mas era o que mais lhes conferia autoridade enquanto discípulos do Messias, por ser um sinal da proximidade do Reino. O império satânico estava por chegar a seu fim; Cristo o confirma”.[5]

Há quem julgue que Deus não castiga, ainda que, de forma coletiva, as almas O tenham expulsado de si pelo pecado

Contudo, Nosso Senhor lhes revela ser mais importante o fato de seus nomes estarem escritos no Céu que os demônios se sujeitarem a eles (cf. Lc 10, 20). Tal asserção do Redentor se baseia em que o poder sobre os demônios é carismático, transitório e traz uma alegria compreensível, mas ainda um tanto humana, enquanto ter os nomes escritos no Céu significa ser membro do Reino em sua fase definitiva, na Pátria Celeste.[6]

O Apocalipse usa um termo semelhante ao aludir à vocação especial de fazer parte da Nova Jerusalém descida dos Céus: “Nela não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no livro da vida do Cordeiro” (21, 27).

Há quem pense que Deus não castiga

Que lição tirar de todos esses episódios?

Eles nos lembram que, no Antigo Testamento, a destruição de Jerusalém ocorreu quando o povo eleito deixou a adoração sincera a Deus para idolatrar os demônios, provocando a ira do Todo-Poderoso. E mostram que Ele pode castigar o seu povo, a fim de purificá-lo, quando este passa, em sua maioria, a cultuar os espíritos infernais.

Réplica dos profetas de Aleijadinho Casa Lumen Maris, Ubatuba (SP)

Há quem julgue que Deus não castiga, ainda que, de forma coletiva, as almas O tenham expulsado de seu interior pelo pecado. Assim pensam as pessoas que põem suas conveniências particulares acima dos interesses do Criador e esquecem o quanto o Altíssimo é ofendido pelas faltas dos homens.

Ora, afirma São Tomás de Aquino, “de Deus só se pode esperar o que é bom e lícito. Mas deve-se esperar de Deus a vingança sobre os inimigos, pois diz o Evangelho de Lucas: ‘E Deus não vingaria seus eleitos que por Ele clamam noite e dia?’ como se dissesse: ‘Ele o fará com toda certeza’”.[7]

O Doutor Angélico não se refere aqui à vingança fruto de uma irritação passageira, impossível de ser infligida por Deus, mas de um castigo proporcional ao delito, visando a correção e o bem. Como ensina Santo Afonso Maria de Ligório, o moralista por excelência, “não merece a misericórdia de Deus aquele que se serve dela para ofendê-Lo. A misericórdia é para quem teme a Deus e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-Lo. Aquele que ofende a justiça – diz o Abulense – pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia?”[8]

São Roberto Belarmino, Doutor da Igreja como os dois Santos anteriormente citados, acrescenta que “não só todos os pecados serão punidos, mas serão ainda punidos com horrendos e pavorosos suplícios, os quais serão tão grandes que dificilmente podem agora ser imaginados pelos homens”.[9]

Confiança durante o tempo de prova

Causa perplexidade considerar que, nesta terra, o castigo pelos pecados dos homens recaia sobre bons e maus. Não nos esqueçamos, entretanto, da exortação feita pelo Senhor através do profeta Baruc àqueles que permaneciam fiéis: “Suportai, filhos meus, com paciência o golpe da cólera divina. Fostes perseguidos por vossos inimigos; em breve, porém, assistireis à sua ruína, e sobre suas cervizes poreis os pés” (Br 4, 25).

Se a humanidade sacrificar aos ídolos, virá o castigo. Mas o Altíssimo não abandonará o seu povo

Se a humanidade sacrificar aos ídolos, abraçando as vias do pecado e afastando-se do Criador, virá o castigo. Mas o Altíssimo não abandonará o seu povo: aos verdadeiros filhos seus Ele concederá poder sobre os demônios para lançá-los no inferno, e este será o sinal distintivo de que chegou o Reino de Deus!

“O Senhor, que eliminou vosso pecado e perdoou vossas faltas, tem poder para vos proteger e vos guardar contra os ardis do diabo que vos combate, a fim de que o inimigo, que costuma engendrar a falta, não vos surpreenda. Quem se confia a Deus não teme o demônio. ‘Se Deus é por nós, quem será contra nós?’ (Rm 8, 31)”.[10]

Que nossos nomes estejam escritos no Céu!

Na atual fase da História da Igreja, nós, católicos fiéis, estamos chamados a não dobrar nossos joelhos, nem sequer um só, diante dos demônios. Devemos, ao contrário, dobrar os nossos joelhos, unir nossas mãos e, sobretudo, curvar nosso coração diante da Santíssima Virgem e rezar a Ela:

“Minha Rainha, eu não quero adorar os demônios, eu não quero ser escravo de satanás. Quero ser escravo de amor do próprio Deus por meio de Vós, como ensinou São Luís Maria Grignion de Montfort. Por isso, minha Mãe, eu Vos peço: acelerai a derrota de satanás e seus sequazes, e enviai vossos Anjos para auxiliar cada um de vossos filhos e filhas. Sobretudo, intercedei para que nossos nomes sejam inscritos no Céu, ou seja, no vosso Imaculado Coração. Peço-Vos, ó Mãe Santíssima, escrevei hoje com letras de ouro nossos nomes em vosso Coração, a fim de que o quanto antes possamos derrotar o poder das trevas e fazer brilhar vossa luz no mundo inteiro. Assim seja”.

 

Notas

[1] O presente artigo reproduz, com as necessárias adaptações à linguagem escrita, a homilia por ele proferida no dia 5 de outubro de 2019 na Catedral Metropolitana de São Paulo.
[2] SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario al Evangelio de Lucas, 64. In: ODEN, Thomas C.; JUST, Arthur A. (Ed.). La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia. Evangelio según Lucas. Ciudad Nueva: Madrid, 2006, v.III, p.250.
[3] Cf. GARCÍA CORDERO, OP, Maximiliano. Biblia Comentada. Libros Proféticos. Madrid: BAC, 1961, v.III, p.753.
[4] Cf. CATECISMO MAIOR DE SÃO PIO X, n.950.
[5] TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.836.
[6] Cf. Idem, ibidem.
[7] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. IIII, q.108, a.1.
[8] SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Preparação para a morte. Considerações sobre as verdades eternas. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 1956, p.128.
[9] SÃO ROBERTO BELARMINO. De ascensione mentis in Deum per scalas rerum creatarum. Gradus decimus quintus, c.IV.
[10] SANTO AMBRÓSIO DE MILÃO. Des Sacrements. L.V, n.30: SC 25, 97.

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