Eles nos foram dados, não só para nos protegermos nas horas de perigo e provação, mas para rezar e interceder por nós a todo instante. São nossos mediadores e advogados junto à Deus. Por isso nos aconselha Dr. Plinio a sempre implorarmos seu auxílio.

 

E nquanto o otimismo moderno, devido à mentalidade obsessiva do happy end, é muito propenso a achar que em nada existe luta, dificuldades e perigos, a Igreja, pelo contrário, nos ensina que esta vida é um combate semeado de riscos materiais e espirituais. Por isso, a Providência Divina dispôs um Anjo para velar sobre cada um de nós. E o fez com tanta munificência que há também um guardião celeste para cada cidade e nação, além daquele que tutela a própria Santa Igreja Católica, o Arcanjo São Miguel.

Não será descabido pensar que, provavelmente, para grupos, famílias de almas, sociedades, etc., existem igualmente Anjos da Guarda, de tal forma que todos os seres são amparados por um espírito angélico.

Destas considerações decorre uma primeira lição de caráter sobrenatural, que nos leva a compreender como é errada a posição, condenada por Dom Chautard,[1] daqueles que dizem: “Sou muito capaz, inteligente, jeitoso, esperto; por causa disso, desde que não me sobrevenham obstáculos muito grandes, não preciso nem na minha vida espiritual, nem na material, do auxílio de Deus. Dou conta por mim mesmo daquilo que preciso fazer.”

Ora, se o Altíssimo encarregou um ente celeste acompanhar e proteger cada um de nós, é porque a todo momento e para tudo o que fazemos necessitamos do auxílio d’Ele.

“Distorções de uma falsa piedade”

Por outro lado, em consequência das concepções de uma piedade errônea, em muitas pinturas que representam o Anjo da Guarda em ação há sempre um menino, insinuando vagamente que tal amparo se destina somente a crianças. Portanto, apenas estas últimas acreditam em Anjos, e um espírito “emancipado”, mais “evoluído”, nele não crê nem precisa de sua ajuda.

Lembro-me de ter visto uma estampa onde aparecia um bonito riacho, tendo à margem graciosas plantinhas, e uma criança rechonchuda, tez rosada, com ar de quem recentemente saíra da cama e fora lavada, frisada e enfeitada. Ela passa sobre uma ponte onde existe uma tábua quebrada na qual poria o pé, mas o Anjo da Guarda, atrás dela, a protege.

Têm-se a impressão de que aquilo é o mundo das imaginações da criancinha, e indica o estado de espírito com que ela atravessa a ponte. Com muito favor, poder-se-ia pensar que o Anjo da Guarda faz o mesmo com adultos. Então, para evitar desastre de automóvel, doenças, pequenos acidentes, etc., é bom recorrer a ele. Em suma, ele serve para as necessidades materiais; quanto às espirituais, não se fala da proteção angélica. Razão pela qual muitos pedem a cura de alguma enfermidade, outros, que favoreça uma reconciliação e coisas do gênero. Poucos têm noção de que nossos Anjos Custódios nos foram dados sobretudo para aquilo que existe de mais importante: velar por nossa alma, lutar e agir conosco para vencermos nossas dificuldades espirituais.

“Nunca estamos sós”

E, contudo, quanto conforto nos daria nas horas das tribulações e tentações, em que nos sentimos sozinhos, termos a certeza de que um Anjo está junto de nós! Embora não o sintamos nem o percebamos, ele não nos abandona um minuto sequer, e se encontra à espera de nossas orações para agir por nós. Muitas vezes ele atua sem que o peçamos, mas fá-lo-á ainda mais se implorarmos sua assistência.

Enquanto tecemos essas considerações, o recinto em que nos encontramos está repleto de Anjos da Guarda que velam por nós, além do Anjo destinado a amparar o conjunto do nosso movimento, se for verdade o que acima cogitamos a respeito das famílias de almas, sociedades, etc.

Compreendemos, assim, quanta alegria desfrutaríamos se tivéssemos essa ideia sempre presente em nosso espírito! Ao fazermos apostolado, ao passarmos por problemas interiores, por aborrecimentos e contrariedades de toda ordem, nos sentimos sós. Tal solidão é uma ilusão: junto a cada um está o Anjo da Guarda. Não obstante imaginarmos que entre nós e ele há uma distância como entre o céu e a terra, ele de fato está perto, rezando, vigiando, protegendo o homem cuja guarda lhe foi confiada por Deus.

Mont Saint-Michel (França)

“Nosso intercessor particular”

A compenetração dessa verdade proporciona alento à vida espiritual, pois sentimos a mão de Deus nos acompanhando a cada passo. E ilustra as afirmações de Nosso Senhor no Evangelho: não cai um fio de cabelo de nossa cabeça, nem uma folha de árvore, não morre um passarinho sem a permissão do Criador. Quer dizer, a conexão entre a missão do Anjo da Guarda e a doutrina católica sobre a Divina Providência é admirável, própria a estimular em nós a virtude da confiança, pois nesta crescemos ao termos sempre presente que o Anjo Custódio nos foi dado não apenas para as horas de perigo e provação, como também para rezar e interceder por nós a todo instante.

O Anjo da Guarda é nosso mediador e advogado junto ao trono do Altíssimo e roga continuamente por nós. Portanto, é de todo congruente pedirmos a ele que nos obtenha graças e afaste de nós os perigos.

Santo Anjo Custódio –
Vitral da Catedral de Palência (Espanha)

“Estímulo e conforto para nossas almas”

Os antigos, aliás, possuíam profunda noção da presença e da intercessão dos Anjos Custódios, e por isso construíam igrejas em seu louvor, e alguns lugares onde eles apareciam se tornavam destino de peregrinação. Por exemplo, a Abadia do Monte Saint Michel, na Normandia. São Miguel Arcanjo é o padroeiro da nação francesa, e também o de Roma, depois que se fez presente no alto do outrora mausoléu do Imperador Adriano, e onde hoje se vê o castelo chamado Sant’Angelo. Em outras ocasiões, viam-se Anjos secundando os católicos em seus confrontos contra hereges e adversários da ortodoxia cristã.

Haveria mil coisas a se considerar a respeito do papel dos Anjos, baseando-se na Bíblia e na história da Cristandade. Infelizmente, tudo isso é pouco ou nada recordado. Razão pela qual é extremamente belo rememorarmos essas verdades e tê-las sempre em vista para o estímulo e conforto de nossas almas.

“Modelo de santidade para o protegido”

Restar-me-ia apresentar uma última reflexão, a qual submeto ao juízo da Igreja por se tratar de uma opinião pessoal, que me parece conveniente e razoável.

Deus tudo faz com conta, peso e medida, de modo ordenado, e não é provável que a designação de um Anjo da Guarda para atender uma pessoa se produza de maneira automática. De fato, não é possível imaginar uma espécie de “ponto de táxi” de espíritos angélicos no Céu, à espera de que nasça um homem e, a um aceno do Criador, o Anjo A ou o X se dirige à Terra e começa a proteger aquele novo ser humano… Essa forma de agir não nos soa como própria à infinita sabedoria divina.

Mais inclinado sou a pensar que Deus delega a cada pessoa um Anjo da Guarda cuja santidade tem relação com a luz primordial[2] daquela alma, de maneira que o Anjo é um celeste modelo das virtudes que ela deve praticar ao longo da vida terrena. Se pudéssemos ver nosso Anjo, contemplaríamos provavelmente a personificação de nossa luz primordial, ou seja, algo que seria de certo modo parecido conosco, mas num grau de beleza ontológica e sobrenatural inconcebível.

“O ‘alter ego’ de cada homem”

Compreendemos, então, a simpatia, a afinidade e o desejo de servir que teríamos para com ele e, reciprocamente, o vínculo especial dele conosco. Quer dizer, o Anjo Custódio é o celeste alter ego, o outro “eu mesmo” de cada protegido. Esta é uma razão particular para que, antropomorficamente falando, tenhamos ainda mais facilidade de compreender como ele nos ampara.

Imaginemos que encontrássemos alguém necessitado de ajuda, sumamente parecido conosco: não é verdade que nos apressaríamos em socorrê-lo, impelidos por essa semelhança? Ora, é o que sucede entre o Anjo da Guarda e cada um de nós.

 

Extraído, com pequenas adaptações, de:
Dr. Plinio. São Paulo. Ano X.

N.115 (Out., 2007); p.24-29
Notas

[1] Autor da obra A alma de todo apostolado, muito recomendada por Dr. Plinio.
[2] Segundo o pensamento de Dr. Plinio, posto que todo homem é criado para louvar a Deus, concede Ele a cada pessoa uma luz primordial, isto é, uma aspiração para contemplar as verdades, virtudes e perfeições divinas de um modo próprio e único, pelo qual dará sua glória particular ao Criador.

 

O Rosário, caminho para a vitória

Devoção cheia de força e substância, séria, de razões firmes e que eleva o pensamento, o Santo Rosário é utilizado para atrair as bênçãos de Deus e afugentar o demônio.

 

Para bem compreender o valor da devoção ao Santo Rosário, analisemo-lo com maior profundidade.

Após ser entregue diretamente por Nossa Senhora a São Domingos de Gusmão, a devoção ao Rosário se estendeu rapidamente por toda Igreja, ultrapassando os limites da Ordem Dominicana e tornando-se o distintivo de muitas outras ordens que passaram a portá-lo pendente à cintura.

Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos –
Paróquia São Pedro Apóstolo, Montreal (Canadá)

Tempo houve em que todo católico o trazia habitualmente consigo, não apenas como objeto de contar Ave-Marias, mas como instrumento que atraía as bênçãos de Deus. O Rosário era considerado uma corrente que liga o fiel a Nossa Senhora, uma arma que afugenta o demônio.

Esplêndida conjunção da oração vocal com a mental

O que vem a ser o Rosário?

Em síntese, o Rosário é uma composição de meditações da vida de Nosso Senhor e de sua Mãe, somada a orações vocais. Tal conjunção — da oração vocal com a mental — é verdadeiramente esplêndida, pois, enquanto se profere com os lábios uma súplica, o espírito se concentra num ponto. Assim o homem faz na ordem sobrenatural tudo quanto pode. Porque através de suas intenções, se une àquilo que seus lábios pronunciam, e por sua mente se entrega àquilo que seu espírito medita.

Por esta forma de oração o homem une-se intimamente a Deus, sobretudo porque esta ligação se dá através de Maria, Medianeira de todas as graças.

Alguém poderia perguntar: “Qual o sentido de rezar vocalmente a Nossa Senhora enquanto se medita em outra coisa? Não podia ser algo mais simples? Não seria mais fácil meditar antes, e depois rezar dez Ave-Marias?”

A resposta é muito simples. Cada mistério contém, nos seus pormenores, elevações sem fim, as quais nosso pobre espírito está procurando sondar… Ora, para fazê-lo com toda a perfeição, precisamos ser auxiliados pela graça de Deus, e tal graça nos é dada pelo auxílio de Nossa Senhora. Ou seja, pronuncia-se a Ave-Maria para pedir que a Virgem Santíssima nos obtenha as graças para bem meditar.

Obra-prima da espiritualidade católica

No Rosário encontramos pequenos, mas preciosos tesouros teológicos que o tornam uma obra-prima da espiritualidade e da Doutrina Católica. Esta devoção contém enorme força e substância; ela não é apenas feita de emoções; pelo contrário, é séria, cheia de pensamento, com razões firmes. Ela constitui a vida espiritual do varão católico como um sólido e esplendoroso edifício de conclusões e certezas.

Além disso, a meditação de cada mistério da vida de Nosso Senhor proporciona ao fiel receber graças próprias ao fato que está contemplando.

Ao analisarmos as incontáveis graças que Maria Santíssima vem distribuindo por meio da recitação do Santo Rosário, vemos nele algo que o torna superior a outros atos de piedade mariana. Ora, qual é a razão disto?

Antes de mais nada, vale salientar que Nossa Senhora, sendo excelsa Rainha, tem o direito de estabelecer suas preferências! E Ela quis elevar esta devoção além das outras, distribuindo graças especialíssimas através da recitação do Santo Rosário.

Extraído, com pequenas adaptações, de:
Dr. Plinio. São Paulo. Ano XIII.

N.146 (maio, 2010); p.26-29

 

 

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