Há certas almas que acham tudo difícil e se abatem quando se lhes apresenta um embaraço… Entretanto, no deserto desta vida só há um abrigo seguro: a sombra da árvore frondosa da cruz!

 

Esta era a máxima de Santo Agostinho: os Santos mais unidos a Nosso Senhor, do alto da montanha do amor, divisam mais largos horizontes do que nós. Eles sabem o que é eternidade e o quanto vale sofrer por amor de Deus e para a salvação de nossa alma, destinada à felicidade eterna. Todos os Santos foram, não só pacientes e conformados no sofrimento, como apaixonados pela cruz. “Ou sofrer ou morrer!”, exclama Santa Teresa. “Sofrer e ser desprezado por Vós!”, dizia São João da Cruz.

Compreende o mundo essa linguagem? A nossa delicadeza e sensualidade não acham exagero nessas expressões? Ah! Somos ainda grosseiros demais! A Cruz de Jesus Cristo nos escandaliza como escandalizava aos pagãos no tempo de São Paulo.

Santo Agostinho, depois de tantos e tão funestos erros em busca da felicidade, achou-a, finalmente, na Cruz de Jesus Cristo. E ele podia dizer: “Grande pena é viver sem pena!” Sim, porque, sem sofrimento, sem cruz, não há méritos, não há virtude sólida, não há salvação garantida. Desde que nosso Divino Mestre nos remiu pela Cruz, não pode haver salvação fora da Cruz! “In Cruce salus!” E, se é tão necessário sofrer, é também, na verdade, grande pena viver sem pena!

O pão sem açúcar e o açúcar sem pão

São Francisco de Assis, por Francisco Pacheco –
Museu de Belas Artes de Sevilha (Espanha)

Muita gente procura mais, na devoção, as consolações de Deus do que o Deus das consolações, diz o autor da Imitação de Cristo. Como as crianças que não procuram um alimento substancial, contentando-se com as guloseimas, confeitos e doces, querem certas almas um fervor sensível, as doçuras da oração. Se Deus lhes retira as consolações, queixam-se, abatem-se e murmuram. E não é raro que cheguem até a deixar os exercícios de piedade.

O amor divino traz uma doçura infinita, enche e transborda o coração, mas nem sempre é todo de alegrias e consolações. Jesus Cristo é um Esposo crucificado. E ninguém O pode amar verdadeiramente sem a cruz. O pão da dor – panem doloris –, de que fala o salmista, deve ser o alimento preferido das almas que aspiram ao Calvário. Santa Catarina de Siena experimentou tantas securas na devoção que se julgou abandonada de Deus. Santa Teresinha, durante longos anos, provou a mais cruciante aridez espiritual. E essas Santas foram duas almas seráficas!

Muitas almas preferem, como diz São Francisco de Sales, o pão sem açúcar de uma devoção bem sólida e, mesmo sem consolações, provam, até ao sacrifício, o seu verdadeiro amor a Jesus Cristo. Outras querem apenas o açúcar das consolações e rejeitam o pão do sacrifício, o pão substancial da dor.

Ó meu Jesus, prefiro o vosso pão sem açúcar ao vosso açúcar sem pão!

Um sorriso na dor

Aceitar a dor sem queixa é virtude, e virtude sólida. Aceitá-la com sorriso é heroísmo. Conheceis o clássico sorriso de Santa Teresinha? É um sorriso entre rosas, mas rosas de espinhos duros e penetrantes. Quando vem o sofrimento, é preciso recebê-lo bem, como quem recebe um hóspede querido. Pois assim fazia o Anjo do Carmelo.

Uma noviça quis ter uma prova de virtude heroica da Santa. “Dois meses antes da sua morte”, diz a irmãzinha, “fui fazer uma visita à Ir. Teresa e, como tinha ouvido elogiar muito a sua paciência, veio-me a vontade de a observar num momento de ­crise. E vejo logo o seu rosto revestir-se de ar de alegria e repontar de seus lábios um sorriso celeste. Perguntando-lhe então a razão daquela mudança, respondeu: ‘Por isso mesmo que sinto dores fortes, preciso amar o sofrimento e mostrar-lhe sempre boa cara’”.

Custa muito um sorriso, quando se apresenta à nossa fraqueza a irmã dor. Custa, mas não é impossível. Havemos de recebê-la. É uma necessidade fazê-lo. Nosso Senhor a mandou. É mensageira do Céu. É a vontade de Deus. Se, como Santa Teresinha, não pudermos recebê-la com sorrido doce e amável, sejamos delicados. Ela é boa, veio do Céu, veio curar-nos. Que entre sossegada a irmã dor e não repare a nossa grosseria se, por acaso, a recebermos sem um gesto amável e um bom sorriso!

Passai por baixo!

Santa Catarina de Siena Real –
Mosteiro de São Domingos de Gusmão, Caleruega (España)

É ainda o Anjo do Carmelo quem nos vai dar uma lição para as dificuldades da vida. Há certas almas que acham tudo difícil. Se se lhes apresenta um embaraço, abatem-se, querem vencer e não podem, querem passar sobre as dificuldades e o acham impossível… E como sofrem!

Numa grave tentação e sério embaraço na vida espiritual, disse uma noviça a Santa Teresinha: “Não posso passar por cima deste obstáculo!” Respondeu a Santa: “Por que há de querer passar por cima? Passe por baixo! É próprio das almas grandes voar lá por cima das nuvens, quando cá por baixo ruge o trovão e se desencadeia a tempestade. Quanto a nós, contentemo-nos em passar por baixo, com humildade e paciência. A propósito, lembro-me disto, que me aconteceu quando era ­criança: um dia estava um cavalo à entrada do jardim, impedindo a passagem. Enquanto os circunstantes, com cuidado em mim, discutiam o meio de desviar o animal, eu passei sossegadamente por baixo deste. Eis aí como é bom ser pequenina e se conservar cada um no seu tamanhozinho”.

Com a paciência e a humildade, ficai sempre bem pequeninos, como as criancinhas, e, quando algum cavalo das dificuldades da vida vos ameaçar ou vos impedir a porta da paz de vossa alma, como Teresinha – depressa! – passai por baixo!

A bela coroa dos heróis e mártires da vontade de Deus

Quereríamos a glória do martírio. Que inveja nos causam os heróis cristãos na arena do anfiteatro, nas prisões, nos cavaletes, na cruz! E podemos ter a glória do martírio, e de um martírio não menos glorioso do que o daqueles que derramaram seu sangue pela causa de Cristo.

Diz Santo Agostinho que o martírio não consiste na pena, mas na causa ou fim por que se morre. E o Angélico Doutor ensina que se pode ser verdadeiro mártir morrendo no exercício de um ato virtuoso. Aceitarmos o que o Céu nos envia de sofrimento e de cruzes, assim como – e principalmente – a morte, para agradar a Deus e nos conformar à sua santíssima vontade, é, pois, martírio e tem o mérito do martírio. E quem faz esse ato, diz com autoridade Santo Afonso, ainda que não morra em mãos do carrasco, tem o mérito do martírio.

As vozes autorizadas de três Doutores da Igreja afirmam que podemos ter a glória do martírio sem derramar o nosso sangue, com a simples aceitação heroica da vontade de Deus.

Não temos, porventura, em nossa vida tantas ocasiões de exercer heroicamente a virtude da paciência? E o dever a cumprir cada dia, monótono, duro, quase insuportável? E o que sofremos dos que nos molestam? E a doença cruciante, longa, talvez incurável? Não quereis, pois, a glória dos mártires? Por que não aproveitais o martírio que Nosso Senhor vos envia? Que bela coroa reserva o Rei dos Mártires aos heróis e mártires da santíssima vontade de Deus!

Santa Teresa do Menino Jesus fotografada
em julho de 1896 por sua irmã Celina

Inútil…

“Sou inútil!”, geme alguém no leito de dores, reduzido a uma inação dolorosa. Quer trabalhar, quer lutar como antes e se vê amarrado, de mãos e pés, num leito, preso à monotonia de um quarto de enfermo. Sou inútil! Que pensamento cruciante, por exemplo, para um coração de apóstolo, sedento de lutar pela salvação das almas, ao contemplar a seara amadurecida e… sem operários.

Ah! Não digamos “sou inútil” quando é ­vontade de Deus que soframos. Inútil era, talvez, o nosso trabalho todo, sem vida interior, sem pureza de intenção Deus não precisa de nós. Somos puros instrumentos nas suas mãos divinas. E o instrumento pode ser robusto ou enfermo, grande ou pequeno. A salvação das almas é obra divina. No leito de dores, o apóstolo pode salvar mais almas pela paciência do que pelas mais brilhantes pregações.

“O que glorifica a Deus”, diz Santo Afonso, “não são as nossas obras, mas a nossa resignação e a conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus”. O apostolado do sofrimento, por ser o mais oculto e penoso, é também o mais eficaz. Escrevia Santa Teresinha a um missionário: “Meu irmão, Deus quer firmar o seu Reino nas almas muito mais pelo sofrimento e a perseguição do que por brilhantes pregações”.

Não és inútil na cruz da enfermidade. Oh, não, bom apóstolo! Estás firmando o Reino de Deus nas almas! […]

Deus não o quis!

Deus quer de nós uma só e única coisa: o cumprimento de sua vontade santíssima. O mais é acessório e até inútil e perigoso para nossa salvação. O dever cumprido nos assegura também o cumprimento da ­vontade de Deus. Quem fez o que deve, fez o que pôde, fez o que Deus quis, podendo ficar tranquilo e abandonar-se inteiramente nas mãos da Divina Providência.

O sucesso? A vitória? O êxito? Pouco importam! Se Deus os quis? “Te Deum laudamus!” Insucessos, fracassos, humilhações? Deus os permitiu? Louvado seja Deus! Temos certeza de haver cumprido o dever e a consciência está sossegada? Tudo vai bem. Deus não o quis!

A pureza de intenção é que vale em nossas obras. Vigiemos a nossa pureza de intenção e nunca ficaremos dolorosamente surpreendidos com os fracassos de nossas boas obras. Apeguemo-nos unicamente à vontade de Deus e fiquemos indiferentes ao sucesso ou insucesso, à vitória ou ao fracasso. Disse o Pe. Lehodey: “Sabemos que Deus quer de nós esta boa obra, mas desconhecemos as suas ulteriores intenções. Muitas vezes, para nos exercitar na virtude da santa indiferença, Deus nos inspira desígnios muito elevados, cujo sucesso, entretanto, não quer”.

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, adorando a
Santa Cruz no Ofício da Paixão do Senhor,
Basílica de Nossa Senhora do Rosário, 29/3/2013

Queixarmo-nos, lamentarmo-nos, descrermos da Providência? Seria orgulho e loucura. Deus sabe o que faz! Se o fracasso nos humilhou e purificou nossa intenção, bendigamos a Deus! Pereceu esta obra de zelo para o nosso bem! Deus não a quis!

“Deixa-Me plantar a cruz”

Nosso Senhor quer salvar-nos pela cruz. Já muitas vezes o tenho dito e repetido aqui. Ele parece dizer-nos, quando Se nos apresenta com a cruz: “Alma querida, deixa-Me plantar a minha cruz no teu coração”. Sejamos generosos, vamos! Plante-a Ele onde e como quiser, e deixe-a bem firme. Que a tempestade de minhas ingratidões e os ventos furiosos das tentações não a possam nunca arrancar!

Só Nosso Senhor sabe onde vai plantar sua cruz na terra árida de meu coração. É preciso cavar a terra, e as enxadas das provações, em mãos de bons operários – as criaturas que nos perseguem e humilham – preparam a cova. Depois a cruz é levantada. É mais um sofrimento. Quando a cruz não está nos ombros, mas penetra numa chaga aberta e a sangrar, custa suportá-la, meu Deus!… Quantas vezes, justamente quando a terra de nosso coração sofreu tantos golpes, foi cavada e batida pelos operários da dor, nos chega a cruz pesada do Calvário! Deixemos que Nosso Senhor plante essa cruz bendita! Morremos de dor, numa agonia triste. Não importa! Ressuscitaremos no amor!

Feliz, mil vezes feliz a alma que compreendeu o mistério da cruz! No deserto desta vida, só há um abrigo seguro: é a sombra da árvore frondosa da cruz. Não tenhamos medo da cruz. Deixemos que Nosso Senhor venha, sim, deixemos que Ele venha quando e com a cruz que quiser.

E Ele nos dirá, cheio de amor: “Deixa-Me plantar a cruz!” Plante-a, sim, meu Jesus, neste deserto do meu coração ingrato, aqui bem no centro, ou melhor, onde quiserdes. Mas plante-a bem, porque a tempestade aqui é forte!

Extraído de: BRANDÃO, Ascânio.
Breviário da confiança.
São Paulo: Ave-Maria, 1936, p.64-76

 

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