O milagre que mais estremece a ordem do universo


O milagre que mais estremece a ordem do universo - Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica

O que acontece com a substância do pão e do vinho após a Consagração? Onde estão depois de ceder lugar ao Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo? Voltam ao nada?

 

As perguntas destacadas acima foram feitas certa vez pelo Fundador dos Arautos do Evangelho, Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, para incentivar que se escrevesse um artigo nesta revista sobre a transubstanciação. Mas respondê-las, conforme ele o fez naquela ocasião, não é fácil…

Diante dos mistérios sobrenaturais, nossa fé encontra, em geral, pontos de apoio dentro da ordem natural. No caso da Encarnação, por exemplo, a natureza humana de Jesus é uma porta que nos torna mais acessível a fé em sua natureza divina. É por este motivo que São Tomé, ao contemplar Jesus ressuscitado, “viu um homem e pela fé confessou a Deus, quando disse: ‘Meu Senhor e meu Deus’”. 1 Contudo, tratando-se da Santíssima Eucaristia, nossa fé não encontra nenhuma referência natural nem palavras capazes de explicar convenientemente o milagre. Neste Sacramento não só a divindade de Cristo está escondida sob os véus de sua humanidade, mas também esta última se oculta sob os véus do pão e do vinho. Portanto, ao considerarmos qualquer aspecto da Eucaristia, devemos reconhecer que estamos, em certo sentido, perante o maior mistério da Fé!

À vista disso, procurar instruir-se mais sobre a transubstanciação não seria pretender explicar o inexplicável, explorar o inexplorável e compreender o incompreensível? Não seria melhor assumir uma atitude de “fé cega” como os Apóstolos, os quais creram na Eucaristia durante a Última Ceia sem entrar em pormenores doutrinários?

Essa foi a opinião de vários hereges. Contra a atitude deles, na aparência razoável, argumenta São Tomás: “Embora o poder divino opere neste Sacramento de uma maneira mais sublime e misteriosa do que pode a razão humana atingir, […] deve-se envidar esforços para que seja excluída qualquer impossibilidade”.2 Ademais, um estudo ­piedoso — conforme procuraremos fazer aqui, com a ajuda da graça — pode ser de sumo proveito para nossa vida espiritual, pois ilumina nosso entendimento, inflama nossa caridade e nos arma contra os erros que nos podem desviar a Fé.

 

I – Pressupostos filosóficos

 

Não se assuste, caro leitor, se primeiro consideramos alguns princípios tomados da filosofia. Este artigo não transmitirá uma avalanche de conceitos e definições! Só veremos os pressupostos estritamente necessários a partir de exemplos comuns.

 

A reflexão dos filósofos antigos sobre as mudanças na natureza

 

Uma das primeiras experiências de nossos sentidos é que neste mundo os seres estão em constante mudança. O próprio Divino Mestre apontou para um exemplo disso ao afirmar com incomparável beleza e simplicidade: “Considerai como crescem os lírios do campo” (Mt 6, 28).

Alguns dos antigos filósofos, analisando a natureza, concluíram que tudo está submetido a perpétuas alterações, nada permanece igual. Assim sintetizou Heráclito este ponto de vista: “De quem desce ao mesmo rio vêm ao encontro águas sempre novas”.3 Outros, como Parmênides, sustentaram a ­tese oposta: abandonaram o testemunho dos sentidos para afirmar que as mudanças neste mundo são meras aparências, tudo permanece sempre igual.

Ora, basta abrir os olhos para comprovar que essas duas teorias constituem, na realidade, explicações unilaterais da natureza. A solução equilibrada veio de Aristóteles, segundo o qual em toda transformação algo muda e algo permanece. E compreender o que muda e o que permanece, do ponto de vista filosófico, nos será indispensável para considerar a transubstanciação.

 

Os dois tipos de conversões no universo material

 

Ao analisarmos as mudanças nos seres em torno de nós, podemos constatar de que não são todas iguais.

De um lado, as coisas podem mudar sem deixar de ser o que são; por exemplo, uma maçã verde amadurece e continua sendo a mesma ­maçã. Este tipo de conversão é acidental porque a substância, aquilo que a coisa é (uma maçã) permanece igual; só os acidentes ou formas acidentais, isto é, suas características não essenciais (tamanho, cor, sabor, etc.), sofrem alterações.

De outro lado, há mudanças muitíssimo mais profundas e complexas, como a verificada numa árvore destruída num incêndio. Este segundo tipo de conversão é substancial, pois a árvore deixou de existir. Não obstante, ainda neste caso algo permanece. Com efeito, não é verdade que enquanto a árvore era consumida pelo fogo apareceram fumaça e cinza? Portanto, há uma continuidade, um elemento comum entre a substância da árvore, a da fumaça e a da cinza, e um elemento próprio que as distingue entre si.

O elemento comum e primeiro do qual estão constituídas todas as substâncias materiais — não só a árvore, a cinza ou a fumaça — denomina-se em filosofia matéria-prima. E aquilo que cada uma tem de essencial ou próprio, especificando a matéria-prima, chama-se forma substancial. Nas conversões substanciais permanece inalterada apenas a matéria-prima como ponto fixo sobre o qual mudam as formas substanciais e as acidentais.

Vejamos um exemplo com a finalidade de ilustrar estes conceitos:

O homem possui como forma substancial de seu corpo uma alma racional e espiritual, a qual o diferencia dos animais não racionais. Além disso, todo homem tem características particulares que podem variar de um para outro: altura, idade, peso, etc., porque a matéria-prima e a forma substancial sempre estão unidas para constituir uma substância, a qual por sua vez está unida a formas acidentais. Dentre os seres materiais, só o homem possui uma forma substancial capaz de existir separada do corpo, após a morte. O corpo, pelo contrário, em nenhum instante fica sem uma forma substancial, pois sua matéria-prima recebe outra forma tão logo se dá a separação com a alma, passando a ser um cadáver e depois pó, à espera da ressurreição e do Juízo Final. A alma humana é, pois, a exceção que confirma a regra, mas com matizes significativos… De fato, São ­Tomás observa que uma alma separada não pode ser chamada de pessoa, a tal ponto ela constitui uma unidade substancial com o corpo.4

Os princípios considerados nesta primeira parte nos serão indispensáveis a seguir, mas podemos adiantar que no singularíssimo milagre da transubstanciação acontece algo completamente diferente…

 

II – A doutrina da transubstanciação em São Tomás

 

É compreensível que algum dos pressupostos acima não tenha ficado inteiramente claro. Portanto, caro leitor, não se preocupe se tiver alguma dúvida! O tema é complexo, mas a proverbial clareza de São Tomás nos terminará por esclarecer tudo, permitindo-nos adentrar na maravilhosa doutrina da transubstanciação.

 

Duas heresias sobre a Santíssima Eucaristia

 

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Segundo narra o Apóstolo Virgem, São João Evangelista, quando Nosso Senhor afirmou que sua Carne é verdadeira comida e seu Sangue verdadeira bebida, muitos de seus discípulos O abandonaram, por considerar duras e inaceitáveis essas palavras (cf. Jo 6, 50-66). E o Doutor Angélico equipara essa péssima reação à dos hereges que se insurgiram, desde então, contra o ensinamento da Igreja sobre a Eucaristia.5

Para eles, Nosso Senhor estaria neste Sacramento só de modo simbólico e figurativo, no sentido metafórico utilizado por São Paulo ao dizer que a pedra da qual Moisés fez brotar água no deserto era Cristo (cf. I Cor 10, 4). Tal como essa rocha foi um sinal das graças que fluiriam pela Redenção, a Eucaristia seria uma mera figura da ação de Nosso Senhor sobre as almas. A prova disso seria o fato de nossos sentidos não perceberem, após a Consagração, nenhum traço da presença d’Ele.

A tal alegação, São Tomás responde com clareza: “Que o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo estejam no Sacramento não se pode apreender pelo sentido, mas somente pela fé, que se apoia na autoridade divina”.6 E o Concílio de Trento definiu de forma categórica: “Se alguém negar que, no Sacramento da Santíssima Eucaristia, estão contidos verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, junto com a Alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, o Cristo inteiro, mas disser que estão apenas como que em sinal ou em figura ou na eficácia, seja anátema”.7

Outros autores, não ousando negar a presença real, sustentaram que a substância do pão e do vinho permanece após a Consagração, junto com o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor. Segundo estes, assim como a natureza humana de Jesus foi assumida pela divina do Verbo, na Encarnação, o Verbo Se uniria hipostaticamente à substância do pão e do vinho na Eucaristia!

A eles responde o Doutor Angélico: “Deus uniu a sua divindade, isto é o poder divino, ao pão e ao vinho, não para que eles permaneçam neste Sacramento, mas para que o poder divino faça deles seu Corpo e Sangue”.8 A Santa Igreja confirmou mais tarde esta doutrina, condenando a opinião contrária: “Se alguém disser que, no sacrossanto Sacramento da Eucaristia, permanece a substância do pão e do vinho juntamente com o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, […] seja anátema”.9

 

A substância do pão e do vinho é aniquilada?

 

Refutados esses erros, alguns autores defenderam a seguinte tese: depois da Consagração, a substância do pão e do vinho se reduziria a uma matéria preexistente, mas sem especificar qual seria!

Analisada sob qualquer prisma, esta tese é absurda. Se eles aludiam à matéria-prima, é impossível que a substância do pão e do vinho seja reduzida a esse estado. Conforme vimos, a matéria-prima só pode existir unida a uma forma substancial e com acidentes. E se referiam a qualquer outro tipo de matéria, como é possível que nossos sentidos não a percebam no altar?

Outro erro ainda foi ventilado: a substância do pão e do vinho voltaria ao nada. A isto responde São Tomás com candura e bom senso, frutos de sua piedade: “Parece impossível também que a substância do pão volte totalmente ao nada. Com efeito, muito da natureza corporal criada teria já voltado ao nada pelo uso frequente deste mistério. E não convém que, neste Sacramento de Salvação, alguma coisa seja reduzida ao nada pelo poder divino”.10

Mas, então, o que acontece com a substância do pão e do vinho?

Retomemos as perguntas feitas no início do artigo, desta vez com mais pressupostos para respondê-las. Para isso, vejamos como a substância do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo se torna realmente presente na Santíssima Eucaristia.

 

A um passo de solucionar a questão…

 

Como pode um objeto passar a estar num lugar onde antes não se encontrava?

Se numa bela manhã caminhamos por um jardim e nos deparamos com cinza no chão, a qual não estava aí no dia anterior, como explicar sua presença nesse local? A experiência nos mostra que isso só é possível por uma mudança de lugar ou pela conversão de outra coisa em cinza. Em outros termos, ou ela foi levada até lá, ou uma parte do jardim foi consumida pelo fogo, transformando-se em cinza.

Pois bem, sabemos que pelas palavras da Consagração o Corpo, Sangue, Alma e divindade de ­Nosso Senhor começam a estar onde antes só havia pão e vinho. Mas isso se verifica por uma mudança de lugar? O Doutor Angélico responde negativamente expondo três argumentos:

Primeiro, Nosso Senhor deixaria de estar no Céu cada vez que se celebrasse uma Missa, pois começar a estar num lugar novo implica deixar o anterior. Segundo, seria impossível celebrar Missas em diversos lugares ao mesmo tempo, pois uma mudança de lugar não pode terminar simultaneamente em locais diferentes. Por fim, qualquer mudança de lugar leva tempo para realizar-se, e a Consagração do pão e do vinho se verifica no último instante em que são pronunciadas suas respectivas fórmulas; se a Consagração se verificasse aos poucos, sob alguma parte da hóstia estariam ao mesmo tempo o Corpo de Cristo e a substância do pão, e no vinho estariam seu Sangue e a substância do vinho. Ora, isso não é possível acontecer, como foi explicado acima.

Mas, poder-se-ia objetar, estes argumentos não se aplicam ao Corpo glorioso de Nosso Senhor. Na realidade, porém, nem os Anjos, de natureza puramente espiritual, são capazes de estar em vários lugares ao mesmo tempo.11 Além disso, embora o corpo glorioso seja agilíssimo, não se move de modo instantâneo, precisa sempre passar pelos locais intermediários para ir de um lugar a outro.12

Portanto, uma vez que na transubstanciação não ocorre mudança de lugar, podemos concluir com segurança que a conversão é a única via para explicar a presença real na Eucaristia: “Resta, pois, afirmar que o verdadeiro Corpo de Cristo começa a estar neste Sacramento ao se converter a substância do pão na substância do Corpo de Cristo, e a substância do vinho na substância do seu Sangue”.13

 

O singularíssimo milagre da transubstanciação

 

Como vimos na primeira parte, há duas espécies de conversões naturais. Nas acidentais, a substância permanece inalterada e só as formas acidentais sofrem alguma modificação; por exemplo, quando a água fria se torna quente pela ação do calor. E nas substanciais só permanece inalterada a matéria-prima, a qual, unida a uma nova forma substancial, constitui outra substância; por exemplo, quando alguém come uma fruta, esta deixa de ser um alimento e passa a fazer parte do corpo de quem a comeu.

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Assim, as modificações naturais, quer acidentais quer substanciais, constituem uma conversão de forma, ou seja, uma transformação. Porém, a conversão da substância do pão no Corpo de Nosso Senhor, e da substância do vinho no seu Sangue, é realizada de um modo totalmente diverso. Com efeito, pelas palavras da Consagração, toda uma substância — com sua matéria-prima e forma substancial — se converte em toda outra substância, permanecendo apenas os acidentes da primeira. Por isso, “esta conversão não é formal, mas substancial. Não se classifica entre as diversas espécies de movimento natural, mas pode-se chamar com o nome apropriado de ‘transubstanciação’”.14

Em contraste com as transformações substanciais, na transubstanciação não procede um novo ser, e sim uma Pessoa preexistente: ­Nosso ­Senhor Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, nascido de Maria Virgem. Por isso, transformar um pedregulho numa águia é nada em comparação ao milagre operado na Consagração! Embora só Deus seja capaz de transformar em águia um pedregulho, essa conversão seguiria o curso das transformações naturais, nas quais uma matéria-prima recebe outra forma substancial e novos acidentes. Só se o pedregulho fosse convertido numa catedral preexistente, por exemplo, de maneira a ela estar contida inteira sob as aparências do minúsculo seixo, teríamos uma imagem mais aproximada da conversão eucarística.

O Doutor Angélico demonstra com um belíssimo argumento o caráter singular e admirável da transubstanciação: “Esta conversão, ­porém, não se assemelha às conversões naturais, mas é totalmente sobrenatural, realizada unicamente pelo poder de Deus. Daí, Ambrósio dizer: ‘É claro que a Virgem gerou além da ordem da natureza. E o que consagramos é o Corpo nascido da Virgem. Portanto, por que procuras no Corpo de Cristo a ordem da natureza, uma vez que foi além da natureza que a Virgem deu à luz o próprio Senhor Jesus?’. E a respeito do texto de João: ‘As palavras que Eu vos disse’, a saber sobre este Sacramento, ‘são espírito e vida’, Crisóstomo explica: ‘São palavras espirituais, nada têm de carnal nem seguem uma lógica natural, mas são livres de toda necessidade terrestre e das leis que regem aqui em baixo’”.15

Assim, a substância do pão e do vinho não permanece na Eucaristia, nem se reduz a outro tipo de matéria e também não volta ao nada. Conforme o definiu o Concílio de Trento, “pela Consagração do pão e do vinho realiza-se uma conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo, Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância de seu Sangue. Esta conversão foi denominada, convenientemente e com ­propriedade, pela Santa Igreja Católica, transubstanciação”.16

 

Um pormenor de particular importância

 

Na maioria das vezes, só mencionamos ao longo deste artigo que o Corpo de Nosso Senhor está neste Sacramento sob as espécies do pão, e seu Sangue sob as espécies do vinho. Ora, não está Ele presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade tanto numas quanto nas outras?

De fato, Cristo está inteiro neste Sacramento. Contudo, cada uma das partes d’Ele se encontra de dois modos diversos: pela virtude do Sacramento ou por concomitância natural. Explica o Doutor Angélico: “Pela força do Sacramento, está sob as espécies sacramentais aquilo em que diretamente se converte a substância do pão e do vinho anteriormente existente. Isso vem significado pelas palavras da forma, que são eficazes neste e nos outros Sacramentos, por exemplo, quando se diz ‘Isto é o meu Corpo’, ‘Este é o cálice do meu Sangue’. Por uma concomitância natural, está presente neste Sacramento o que realmente está unido àquilo em que termina a conversão”.17

Portanto, sob as duas espécies se encontram o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Mas em virtude do Sacramento estão respectivamente o Corpo e o Sangue sob as espécies do pão e do vinho; o restante está nas duas espécies por concomitância natural.

 

III – Nossa piedade diante deste singular e admirável milagre

 

Quando, doravante, estiver próximo da Consagração numa Missa, lembre-se, caro leitor, desta sublime verdade: você presenciará o milagre que mais faz estremecer a ordem do universo. “A mudança do pão no Corpo de Jesus e do vinho em seu Sangue abala toda a natureza. À voz de Moisés, o Mar Vermelho suspendeu suas ondas; à voz do sacerdote, a natureza suspende suas leis, os milagres sucedem-se em cadeia uns aos outros, o mundo é como que sacudido pelo incrível prodígio da Consagração; e para manter a ordem em meio a essa gigantesca comoção, é necessário um poder maior, em certo sentido, que o poder de criar”.18

Na transubstanciação, com efeito, há aspectos mais extraordinários do que na criação, pois nesta só é complexo explicar como pode algo ser ­tirado do nada. E por um aparente paradoxo, enquanto o poder de criar seres do nada é exclusivo de Deus, Nosso Redentor concede a seus ministros, pela ordenação sacerdotal, a potestade de consagrar o Santíssimo Sacramento.19

Qualquer um de nós daria a vida para contemplar a Anunciação do Arcanjo São Gabriel a Nossa Senhora e a Encarnação do Verbo. Sem dúvida, também daríamos a vida para ver o Menino Jesus nos braços virginais de Maria Santíssima, na Gruta de Belém. Entretanto, não deveria ser menor nosso desejo de assistir, durante a Missa, ao singular e admirável milagre pelo qual Nosso Senhor, por assim dizer, nasce sacramentalmente sobre o altar, derramando sobre nossas almas as mais copiosas graças e bênçãos divinas: “Este Jesus vós O amais, sem O terdes visto; credes n’Ele, sem O verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas” (I Pd 1, 8-9).

 

O Doutor Angélico ensina

Uma mudança instantânea

 

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Uma mudança é instantânea por três razões. Antes de tudo, por causa da forma que é o término da mudança. Se existe uma forma que comporta mais ou menos, como a saúde, o sujeito se apropria dela sucessivamente. E porque a forma substancial “não comporta mais e menos”, então acontece que ela é introduzida na matéria instantaneamente.

Uma segunda razão vem do sujeito, que, às vezes, se prepara progressivamente para receber a forma, como acontece com a água que aquece aos poucos. Quando, porém, o próprio sujeito já está na última disposição para a forma, recebe-a logo, como um corpo transparente se ilumina imediatamente.

Finalmente, da parte do agente, que possui um poder infinito. Por isso, pode logo dispor a matéria para a forma. Aliás é o que se relata no Evangelho, quando Cristo disse “‘Effettá’, isto é: ‘Abre-te’. Logo se lhe abriram os ouvidos, a língua se lhe desatou”.

Por essas três razões, a conversão eucarística se processa instantaneamente. Porque a substância do Corpo de Cristo, que é o termo desta conversão, não comporta mais e menos. Porque nesta conversão não existe nenhum sujeito que se prepara progressivamente. Porque está em questão o poder infinito de Deus.

(São Tomás de Aquino. Suma Teológica. III, q.75, a.7.)

 

Irmão de nossa carne e de nosso sangue

 

A Encarnação não teve unicamente por fim o de reparar a ofensa feita a Deus por nossos pecados, de curar a humanidade de ­suas feridas, e de libertá-la da escravidão ao tirano dos corpos e das almas. Ela também nos devolveria a qualidade de filhos adotivos de Deus, perdida pela revolta original; ela iria deificar o homem, fazer dele o herdeiro do Pai e o co-herdeiro de Jesus Cristo.

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O Filho do Deus vivo se tornou filho do homem

 

Não há nada que nossos santos Doutores tenham amiúde e mais magnificamente ensinado. “Se o Verbo Se fez carne, se o Filho eterno do Deus vivo Se tornou filho do homem, é para que o homem, entrando em sociedade com o Verbo, estreitando a adoção, se tornasse filho de Deus”.  E ainda: “O Filho de Deus, seu Unigênito segundo a natureza, por uma maravilhosa condescendência, tornou-Se filho do homem, a fim de que nós, filhos do homem por nossa natureza, nos tornássemos filhos de Deus por sua graça”. E esta doutrina, é o próprio Deus que por seus Apóstolos a transmitiu aos Padres: “Quando veio a plenitude dos tempos, enviou Deus a seu Filho, feito de mulher, feito sob a Lei […], para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4, 4-5). […]

 

Deus nos queria elevar até Ele

 

Sim, tal é o fim próximo, imediato, da união do Filho eterno com nossa natureza: fazer do homem um filho adotivo de Deus, o irmão do Primogênito. […]

E, com efeito, posto que Deus queria nos elevar até Ele, não importava que Ele descesse primeiramente até nós? Que meio mais natural e mais divino de nos fazer entrar em sua família, do que Se unir Ele próprio à nossa? Como, enfim, convidar-nos mais eficazmente a partilhar, por adoção, a honra da filiação divina do que nos dando o Filho, eterno objeto da complacência paterna, por irmão mais velho, um irmão de nossa carne e de nosso sangue?

TERRIEN, SJ, P. Jean-Baptiste.
La Mère de Dieu et la Mère des Hommes. 8.ed. Paris: P. Lethielleux, 1902, v.I, p.80-81

 

1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.1, a.4, ad 1.
2 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os Gentios. L.IV, c.63, 1.
3 REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. 2.ed. São Paulo: Loyola, 1993, v.I, p.64.
4 Assim o afirma São Tomás: “Anima separata non potest dici persona — A alma separada não pode chamar-se pessoa” (In III Sententiarum, d.5, q.3, a.2).
5 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os Gentios. L.IV, c.62.
6 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.75, a.1.
7 Dz 1651.
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.75, a.2, ad 1.
9 Dz 1652.
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os Gentios. L.IV, c.63.
11 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.52, a.2.
12 Cf. Idem. Suppl. q.84, a.3.
13 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os Gentios. L.IV, c.63.
14 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.75, a.4.
15 Idem, ibidem.
16 Dz 1642.
17 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.76, a.1.
18 HUGON, Édouard. La Sainte Eucharistie. 4.ed. Paris: Pierre Téqui; Libraire-Éditeur, 1922, p.10.
19 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.75, a.8, ad 3; I, q.45, a.5; III, q.82, a.1.