São João Batista


Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaNão fez milagres, mas, por sua pregação e pelo exemplo de sua vida, atraía à conversão. Desde seu nascimento até depois de sua morte, foi um verdadeiro arauto do Messias.

São João Batista

Natividade de São João Batista

Muito nos falam os Evangelhos da pessoa ascética do Batista, com suas vestes evocativas dos antigos profetas de Israel e sua austeridade de vida. Chegaram os judeus a pensar que estavam diante do Messias esperado.

Entretanto, a história deste varão tão singular, cuja pregação marca o fim do Antigo Testamento e dá início ao Novo, é desconhecida para muitos. Falemos um pouco sobre ela.

 

Nascimento anunciado por um Anjo

Nos tempos de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias” (Lc 1, 5). Sua mulher, de estirpe sacerdotal, chamava-se Isabel. Eram ambos de idade avançada e não haviam recebido a principal bênção de todo lar hebreu: uma descendência. Justos e tementes a Deus, aceitavam sem poder consolar-se esta dura prova.

Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaEstando de serviço no Templo, oferecendo o incenso no altar dos perfumes, Zacarias sentia palpitar seu coração na esperança da iminente chegada do Messias quando viu à sua direita um Anjo do Senhor, radiante de glória.

Não temas, pois tua oração foi ouvida: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João”, disse o celeste mensageiro. E acrescentou: “Ele será grande diante do Senhor” e “irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias” (Lc 1, 13.15.17). Entretanto, por ter duvidado da promessa por um instante, ficou mudo.

São Lucas nos transmite a seguir a Anunciação do Anjo à Virgem Maria e a visita desta a Isabel, pondo em contato a Mãe do Messias com a mãe do Precursor. Ao ouvir a saudação de Maria, Isabel sentiu o nascituro “saltar de alegria” em seu seio (cf. Lc 1, 26-45). O Precursor reconhecera o Messias e começou logo a exercer sua função de arauto.

Ao nascimento seguia-se a circuncisão, o rito de admissão do filho varão no povo de Deus. A esta se associava a imposição do nome, a qual era uma como que inscrição do recém-nascido no catálogo dos filhos de Israel. Os parentes e vizinhos queriam dar ao Batista o nome de seu pai, Zacarias, mas Isabel interveio sem vacilar: “Ele se chamará João”. Replicaram eles que na família não havia ninguém com este nome. Consultado, Zacarias escreveu numa tabuinha: “João é o seu nome”. Logo recuperou a fala, que havia perdido por ter duvidado da palavra do Anjo (cf. Lc 1, 58-63).

Sempre generoso com seus servidores, Deus não só o curou da mudez, mas também o encheu do Espírito Santo e o elevou às alturas do profetismo, colocando em seus lábios o belíssimo cântico do Benedictus: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo, e suscitou-nos um poderoso Salvador, na casa de Davi, seu servo” (Lc 1, 68-69). Por fim, fixando os olhos no filho, profetizou ­trêmulo de emoção: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o caminho” (Lc 1, 76).Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Histórias para crianças - História de Fé

 

 

O primeiro a dar testemunho de Jesus

Dos primeiros anos de vida do “profeta do Altíssimo”, conhecemos apenas estas breves palavras do Evangelho: “O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel” (Lc 1, 80). Logo que os cuidados maternos deixaram de ser-lhe necessários, afastou-se do convívio humano, recolhendo-se nas solidões do deserto. Segundo São Mateus, viveu oculto aos olhos do mundo no deserto da Judeia, a parte mais árida do país. Provavelmente, ali fez seu longo noviciado.

Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaNas sinagogas os rabinos garantiam ao povo que o Messias não tardaria em aparecer. Citavam a célebre profecia de Daniel: “Setenta semanas foram fixadas a teu povo e à tua cidade santa para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade, para instaurar uma justiça eterna, encerrar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos” (9, 24).

Nessa altura dos acontecimentos, São João Batista pôs-se a batizar no rio Jordão. Simbólica escolha do local, pois por aquelas regiões entrara o povo de Deus na Terra Prometida. O lugar era, ademais, adequado para o batismo de imersão, rito novo, figurativo da conversão à qual ele exortava.

Ninguém conhecia sua origem. Apenas alguns velhos pastores das montanhas contavam que havia desaparecido de casa um menino concedido milagrosamente ao sacerdote Zacarias.

Pouco depois de São João Batista aparecer em público, apresentou-Se Jesus. A vida pública do Redentor começa com a missão do Precursor. Esta missão era essencial. Dele estava escrito: “Vou mandar meu mensageiro para preparar meu caminho” (Ml 3, 1). São João Batista falava de Cristo como daquele que “vem depois de mim” (Mt 3, 11; Mc 1, 7; Jo 1, 15). Como elo entre o Antigo e o Novo Testamento, é o primeiro a dar testemunho de Jesus. Não só anuncia o Messias, mas O indica.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Comentários ao Evangelho

 

“Fazei penitência” era sua palavra de ordem

São Mateus inicia de forma solene o relato da vida pública do Precursor: “Naqueles dias, apareceu João Batista” (3, 1). Toda a Judeia falava a seu respeito. Quatrocentos anos sem profeta despertavam no povo fome de profecias.

São Lucas, “com uma solenidade literária cronológica especial”, 1 procura precisar o tempo e o espaço em que São João Batista irrompe como o Precursor. E revela-se bem documentado: “No ano décimo quinto do reinado do imperador Tibério…” (3, 1).

São João Evangelista mostra-se respeitoso com aquele que foi seu mestre e refere-se a ele com maior reverência: “Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele” (1, 6-7).

A aparição do Batista era tão importante que São Lucas assim o apresenta: “Veio a palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias” (3, 2).

Generalizou-se de tal forma a afluência de judeus em torno dele que Marcos e Mateus não hesitam em afirmar: “Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele” (Mt 3, 5); “Saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém” (Mc 1, 5).

Não sabemos como agiu o filho de Zacarias para fazer-se tão conhecido. Os Evangelhos não mencionam sequer um milagre operado por ele. A este arauto destacado para “aplainar os caminhos”, bastava a força de suas palavras e o exemplo de sua vida. Mas sabemos o que nos relata São Lucas: “Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (3, 4); “Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro ante a tua face; ele preparará o teu caminho diante de Ti” (7, 27). E o próprio Redentor proclamará: “Entre os nascidos de mulher não há maior que João” (Lc 7, 28).

João seguiu o caminho oposto ao dos pregadores de tipo messiânico que o antecederam. Todo o seu ensinamento centrava-se numa exortação: “Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 3, 2). Era esta sua palavra de ordem.

 

Ensinava com o exemplo o que pregava com a voz

De sua solitária vida sabe-se apenas como era austera: “João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre” (Mt 3, 4). Produziu imensa comoção e um estremecimento em Israel: “Surgiu um profeta!”.

Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaPodemos imaginá-lo alto e delgado, mas forte, de olhar ardente e carregado de misticismo; firme e decidido, cheio de bondade, tom de voz viril e melodioso. Tinha de fazer a fama de Nosso Senhor e depois desaparecer. Os fariseus deviam odiá-lo muito.

Não provou vinho nem sidra, nem qualquer outra bebida delicada. Seu alimento normal consoava com sua mísera indumentária: gafanhotos e mel silvestre, ou seja, colhido nos troncos de árvores ou nas gretas das rochas. À moda dos nazarenos, ostentava longa e majestosa barba, jamais tocada pela navalha, e seus cabelos flutuavam sobre os ombros, acentuando o austero aspecto do rosto. Distinguia-se por sua santidade de vida. Todos ficavam impressionados pelo rigor de sua penitência, integridade de seus costumes e força de suas palavras. Ensinava com o exemplo o que pregava com a voz.

João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados” (Mc 1, 4). A primeira coisa que ­exigia de seus ouvintes era o arrependimento. Uma metanoia, ou seja, uma mudança completa de mentalidade e de alma, uma transformação espiritual, um repúdio ao pecado nas profundidades do próprio ser. Não se contentando com meros sinais exteriores de arrependimento, exortava a uma conversão sincera. Às pregações acrescentava o batismo, para significar a necessidade de limpar as manchas da alma. Não era, pois, apenas um arauto, mas aquele que batizava.

O batismo de São João Batista não perdoava os pecados, como o Sacramento do Batismo apaga a mancha do pecado original e o da Penitência perdoa os pecados pessoais. Não passava de um símbolo exterior que representava a mudança de vida e a limpeza de coração às quais ele exortava.

Soube escolher entre seus ouvintes certo número de discípulos, alguns dos quais se tornaram Apóstolos de Jesus: André, Pedro, Tiago e João. Não perdia ocasião de dar testemunho do “Cordeiro de Deus”. Foi eficacíssima a pregação do grande profeta.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Arautos no Mundo - Arautos do Brasil

 

 

“Eu O vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus”

Chegava a hora de verificar-se ante o povo judeu a conjunção entre o Precursor e o Messias. João não O conhecia senão pelas comunicações do Espírito Santo, seus olhos nunca O tinham visto. Ansiava pelo feliz momento de poder contemplar o rosto do Salvador, ouvir sua voz e oscular seus sagrados pés.

Talvez por volta de seis meses após o início da pregação de São João Batista tenha Jesus Se reunido a uma caravana que ia ao Jordão à procura do profeta. Incógnito, como qualquer israelita, era um entre milhares. Por seu linguajar, notava-se que era galileu. Pouco nos relatam os Evangelistas sobre esse encontro. Conversando um dia com seus discípulos a esse respeito, afirmou São João Batista: “Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: ‘Sobre quem vires descer e repousar o Espírito, este é quem batiza no Espírito Santo’” (Jo 1, 33).

Enquanto preparava um grupo de penitentes para receber o batismo, fixou de repente o olhar sobre um Varão cujo aspecto o fez estremecer, como anos antes havia se comovido no seio materno pela presença do Salvador. Um instintivo movimento o impelia para Ele. Quando, porém, ia arrojar-se a seus pés, Jesus o deteve e pediu-lhe o batismo. “Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim!” (Mt 3, 14), exclamou admirado São João Batista.

Jesus respondeu com as primeiras palavras de sua vida pública, registradas pelos Evangelistas: “Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa” (Mt 3, 15). A justiça exigia que Cristo, tendo tomado sobre Si as iniquidades do mundo inteiro, fosse tratado como um pecador. João compreendeu e não resistiu à vontade do Mestre. Realizado o batismo, “os céus se abriram e viu descer sobre Ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus” (Mt 3, 16). Ao mesmo tempo, a voz do Pai celestial fez ouvir estas memoráveis palavras: “Eis meu Filho muito amado em quem ponho minha afeição” (Mt 3, 17).

Podia agora o Batista dar — como arauto que era — novo testemunho de Jesus, dizendo: “Eu O vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus” (Jo 1, 34).

 

O arauto do Messias refuta os erros do povo

Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaTal era a excitação das multidões ante a austera vida de São João Batista — digna dos antigos servos de Deus —, a elevação de sua doutrina e o ardor de seu zelo, que os judeus chegaram a se perguntar se não estavam já em presença do Messias. Contribuía para isso o fato de se terem completado as setenta semanas anunciadas por Daniel.

São João Batista não podia consentir por um momento sequer numa ambiguidade em matéria tão fundamental. Como profeta, cumprirá com toda fidelidade sua missão de indicar o verdadeiro Messias; como santo, sua humildade não irá tolerar equívoco; como apóstolo, aproveitará este momento propício para eliminar toda dúvida a tal respeito.

“Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de Lhe desatar a correia do calçado” (Jo 1, 26-27). Como autêntico arauto, refuta com toda clareza esses erros. Muitos de seus discípulos renderam-se à autoridade de seu testemunho, enquanto outros se obstinaram no erro e publicaram que era ele o Messias esperado.

Natividade de São João Batista - Revista Arautos do Evangelho - Revista CatólicaPara forçar São João Batista a revelar ­suas intenções, os judeus de Jerusalém enviaram para interrogá-lo sacerdotes e levitas, entre os quais alguns fariseus. Não contavam eles com o espírito de verdade que o animava (cf. Jo 1, 19-27; Mc 1, 8).

— Quem és tu? — perguntaram.

— Eu não sou o Cristo — respondeu ele sem hesitar.

Apesar de desconcertados com esta confissão, insistiram os inquisidores:

— És Elias? És o profeta?

Do coração do Batista brotou apenas a verdade pura e simples:

— Não sou.

— Dize-nos, afinal, quem és, para podermos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? — inquiriram os fariseus, julgando que desta vez o colheriam em suas redes.

— Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías — replicou João.

Voltaram à carga os embaixadores:

— Como, pois, batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?

São João Batista respondeu:

— Eu batizo com água, mas Ele vos batizará no Espírito Santo.

São João Batista não cessava de proclamar seu testemunho: “No meio de vós está quem vós não conheceis. Esse é quem vem depois de mim”. E a embaixada do Grande Conselho não fez senão aumentar seu prestígio.

 

A autenticidade do arauto: seus testemunhos

Seus discípulos foram os primeiros a receber seu batismo e a entregar-se a ele de todo o coração. São João Batista os instruía nos caminhos da vida sobrenatural que ele próprio seguia. Os Evangelhos sinópticos não relatam outro testemunho de São João Batista sobre Jesus, a não ser o do seu batismo. O quarto Evangelho, ao contrário, nos refere vários.

No dia seguinte ao do episódio acima narrado, estando João com dois discípulos, fixou os olhos em Jesus que passava, e assinalou com ênfase o Salvador de Israel: “Eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29). O Cordeiro que Se sacrifica, dando sua vida para tirar o pecado do mundo.

Para não deixar dúvida alguma no espírito de seus discípulos, João insistia: “Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas fui enviado diante d’Ele. […] Importa que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 28.30).

Este varão chamado a ser profeta do Altíssimo causou impacto até depois de morto, atemorizando o poderoso tetrarca Herodes, o qual, ouvindo falar dos portentosos milagres de Jesus, assustou-se: “É João Batista que ressuscitou. É por isso que Ele faz tantos milagres” (Mt 14, 2). Desde seu milagroso nascimento até depois de sua morte, foi um verdadeiro arauto do Messias.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - A Voz dos Papas - Comentários do Papa - Intenções do Papa

 

 


Martírio de São João Batista

Tem como veste apenas um rude cilício de pele de camelo, um cinto também tão espantoso sobre os rins; como alimento, gafanhotos e mel silvestre; e na sede, água pura. Exposto às intempéries e não tendo outro retiro que os rochedos, sem recurso, sem servidores, e sem outra manutenção; essa a vida que leva João Batista, desde a infância. Queixamo-nos ainda agora!

Martírio de São João Batista - Revista Católica Arautos do EvangelhoMas eis aqui uma privação bem mais surpreendente. João Batista tinha sentido sobre a terra o Verbo Encarnado, desde o seio de sua mãe; o pai tinha-lhe predito que ele seria o profeta e devia preparar-lhe o caminho. Entretanto, ele não deixa o deserto para o ir ver entre os homens; ele o conhece tão pouco, que será necessário que o Espírito Santo lhe dê um sinal, para o conhecer, quando chegar o tempo de o manifestar ao mundo. Todavia, ele ocupa-se sem cessar de Jesus, sem cessar ele medita em sua grandeza, sem cessar ele o adora em silêncio, sem cessar o escuta dentro de si. Ele não tem curiosidade de o ver com os olhos do corpo: é que ele sabe que Jesus opera invisivelmente, de longe como de perto. Eis quem deve servir e amar a Jesus, não mais como criança, que é preciso nutrir de leite, de consolações sensíveis, mas como homem feito, que se nutre de alimento sólido, que se nutre de privações e de sofrimentos. Somos assim?

Morrei, delicadeza no beber e no comer, delicadeza nas vestes, delicadeza no dormir; morreu, orgulho humano; morrei, curiosidade, ambição, desejo de aparecer. Se, como João Batista, queremos preparar os caminhos para Jesus, introduzi-los nos nossos corações e nos corações dos outros, como João Batista, morramos a toda vista humana, a todo afeto da carne e do sangue.

Há quinhentos anos não aparecia mais profeta. Mas uma grande novidade se espalha: um profeta veio do deserto e prega nas margens do Jordão. É o filho de Zacarias e de Isabel; seu nome é João; seu nascimento foi maravilhoso; sua vida é ainda mais maravilhosa. Não come, não bebe, por assim dizer; vive de gafanhotos e de mel silvestre. Seu vestuário é um rude cilício com um cinto de couro. Fazei frutos dignos de penitência, diz, porque o reino de Deus está próximo e o Messias vai aparecer. Toda a Judéia, toda Jerusalém para lá acorre e recebe o batismo de penitência, confessando os pecados. Corramos nós também à pregação desse admirável missionário; nós também confessemos os pecados e recebamos o batismo da penitência, para nos prepararmos à vinda de Jesus Cristo, a nossos corações.

Que multidão de pecadores abraça a penitência! João dizia-lhes: Já o machado está posto à raiz das árvores; toda árvore que não der bons frutos será cortada e atirada ao fogo. Que faremos então? Perguntava a multidão do povo. Mestre, que faremos? Perguntavam os publicanos. E nós também, perguntavam os soldados, que faremos? E ele dizia a cada um o que devia fazer, e todos o faziam. Os maiores pecadores, as mulheres de má vida, acreditavam na pregação, convertiam-se e ganhavam o céu. Os fariseus ao contrário, os escribas, aqueles que se consideravam sábios e justos, não acreditavam e não se convertiam.

Temamos que, em nos ocupando de ciência, observando uma regularidade exterior, nos não enchamos de orgulho, como os escribas e os fariseus, e não percamos, como eles, o espírito de penitência e de compunção. Talvez os pecadores do mundo, cujos escândalos deploramos, se convertam e nos precedam no céu, ao passo que, árvores cheias de flores e de folhas, mas sem bons frutos, seremos cortados e atirados ao fogo. Deus nos livre de tal calamidade!

A admiração que se teve pelo santo precursor foi logo tão grande, que o povo tinha o espírito suspenso e todos pensavam se João não seria Cristo. Mas João respondeu a todos: Eu vos batizo na água para a penitência; mas aquele que deve vir depois de mim é mais poderoso que eu e não sou digno de lhes desatar as correias das sandálias (como faria um escravo ao senhor). Não, não sou digno de me prostrar diante dele, para lhe desatar a correia da sandália. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Tem o abano na mão e limpará a eira; ajuntará o trigo no celeiro e queimará a palha num fogo que jamais se extinguirá.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - A Voz dos Papas - Comentários do Papa - Intenções do Papa

Não somente o povo tinha de João tão alta idéia. A cidade de Jerusalém manda-lhe uma solene delegação de padres e de levitas, para lhe perguntar se era o Messias. Ele respondeu claramente: Não sou Cristo. – Como então? Sois Elias? – Não. – Sois um profeta? – Não. – Que sois, então? Que dizeis de vos mesmo? – Eu sou a voz daquele que clama no deserto: Endireitai os caminhos do Senhor, como disse o profeta Isaías. – Mas, se não sois nem Cristo, nem Elias, nem profeta, porque, então, batizais? – Eu vos batizo, respondeu ele, na água, mas há no meio de vós quem não conheceis; deve vir depois de mim; e não sou digno de lhes desatar os cordões das sandálias. – Esse era João Batista. Quanto mais o elevam, mais ele se abaixa, mais atribui a Jesus somente toda sua glória.

Entretanto, como o Senhor mesmo nos afirma, João era Elias em espírito e em virtude, se não o era em pessoa, era profeta e mais que profeta, porque devia não somente anunciar o Cristo futuro, mas mostrá-lo já vindo, batizá-lo com suas mãos. E com isso se julga indigno de lhes prestar os mais humildes serviços, de desatar-lhe as sandálias. Ó minha alma, ousaremos ainda glorificarmo-nos de alguma coisa? Orgulhamo-nos de vãos louvores que se nos dão, cobiçar os que nos não dão! Quem somos, perto de João Batista?

No meio dessa multidão de pecadores, que se apresentam a João para receber o batismo de penitência, há um que ele recusa receber e admitir ao mesmo. Quem é? É Jesus, que vem da Galiléia ao Jordão e se apresenta a João para ser batizado. O senhor apresenta-se ao servo, o criador à criatura. Deus ao homem? O Santo dos Santos, confunde-se entre os pecadores, o Juiz entre os culpados. João o tinha reconhecido e adorado desde o seio de sua mãe, reconhece-o de novo e o adora. Eu, diz ele, inclinando-se diante de Jesus, eu é que tenho necessidade de ser por vós batizado; e vós vindes a mim! – Ó bem-aventurado João, obtende-me de Jesus vossa humildade.

Que vais fazer Jesus? Que dirá? Deixai-me agir agora, pois convém que cumpramos toda a justiça. Jesus, tendo tomado sobre si as iniqüidades de todos, era justo, era conveniente que se misturasse aos pecadores. Tendo vindo principalmente para nos curar do orgulho, da vaidade, da rebelião para com Deus, era conveniente que nos desse o exemplo de humildade, de abaixamento. Admiremos essa maravilhosa questão entre o senhor e o servo. Quem se colocará mais abaixo do outro? Ai! Nossas discussões são da mesma natureza? Entre nós não é quem mais se eleva acima do outro? Quão pouco nos assemelhamos a Jesus e a João Batista! Ó Divino Mestre, tende piedade de nós, tende piedade de mim! Dai-nos, dai-me ser doce e humilde de coração, como vós e vosso santo precursor.

A humildade de João era sincera e ele obedeceu à ordem de Jesus. Ambos descem ao Jordão. O rio, que se tinha detido outrora diante da arca da aliança, para deixar passar o povo de Deus, sob o comando de Josué ou Jesus; o Jordão estremece de alegria desconhecida: suas águas rodeiam, com respeito, a carne adorável do Filho de Deus feito homem; correm com pesar; correm, santificadas por aquele contato a santificar todas as águas do universo e comunicar-lhes a virtude de apagar os pecados pelo batismo. Entretanto, o bem-aventurado João põe sobre a cabeça sagrada de Jesus uma mão agitada pelo respeito e pela alegria e batiza seu Senhor e seu Deus; Jesus está imerso nas águas; afoga os pecados do mundo e delas sai para criar um mundo novo, um homem novo.

Ao sair do deserto, aonde tinha ido depois do batismo e triunfado do demônio, Jesus caminhava ao longo do Jordão. João viu-o vir para seu lado e disse: Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tora os pecados do mundo. Todos os dias, de manhã e de noite, imolava-se no templo um cordeiro e a isso se chamava o sacrifício perpétuo. Como se São João tivesse dito: Não acredites que esse cordeiro, que se oferece dia e noite, seja o verdadeiro cordeiro, a verdadeira vítima de Deus; eis aquele que se pôs, entrando no mundo, no lugar de todas as vítimas; também ele é a vítima pública do gênero humano, e somente pode expirar ou tirar aquele grande pecado que é a fonte de todos os outros e que por isso pode ser chamado de pecado do mundo, isto é, pecado de Adão, que é o pecado de todo o universo.

Martírio de São João Batista - Revista Católica Arautos do EvangelhoEsse cordeiro já foi imolado em figura; e pode-se dizer, na verdade, que foi morto e posto à morte desde a origem do mundo. Foi massacrado em Abel, o Justo: quando Abrão quis sacrificar o filho, começou em figura o que devia ser terminado em Jesus Cristo. Vemos também cumprir-se nele o que começaram os irmãos de José, Jesus foi odiado, perseguido até à morte por seus irmãos; foi vendido na pessoa de José, atirado a uma cisterna, isto é, entregue à morte; esteve com Jeremias no lago profundo, com os moços na fornalha ardente, com Daniel na cova dos leões. Era imolado em espírito em todos os sacrifícios. Estaca no sacrifício de Noé, oferecido ao sair da arca, quando viu no céu o arco-íris como sacramento da paz; no que os patriarcas ofereceram nas montanhas , no que Moisés e toda a lei ofereciam no tabernáculo e depois, no templo; e não tendo jamais deixado de ser imolado em figura, vem agora, sê-lo em verdade.

Cada dia, assistimos ao sacrifício adorável onde esse cordeiro de Deus, continua a se imolar pelos pecados do mundo. Cada dia mesmo, podemos aí comer a carne adorável dessa vítima. O padre diz-nos como outrora São João: – Ecce agnus Deu, ecce qui tollit peccata mundi; – eis o cordeiro de Deus, eis aquele que tora os pecados do mundo. Creiamos, adoremos; mas creiamos, adoremos com a fé dos patriarcas e dos profetas, com a fé de São João Batista.

Um dia os discípulos de João lhe vieram dizer: Mestre, aquele que estava convosco além do Jordão e a quem destes testemunho, batiza e todos vão a ele. Julgavam que tendo ele também vindo a João, para ser por este batizado, não se devia abandonar a João por ele. Escutemos a resposta de João: “O homem nada pode receber, se não lhe for dado pelo céu. Vós me prestais testemunho de que eu disse: Aquele de quem é a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo que assiste e escuta é transportado de alegria pela voz do esposo. E por isso minha alegria completa-se. É preciso que ele cresça e que eu diminua“. Meditemos bem nestas últimas palavras.

Os discípulos de João viam, com uma espécie de inveja, que o mestre era abandonado para ir a Jesus. Seu mestre, ao contrário, estava no auge da alegria, por isso. Tinha vindo anunciar Filho de Deus feito homem, anunciá-lo como esposo da natureza humana, esposo da Igreja, esposo de nossas almas. Esse divino esposo tinha começado a fazer ouvir sua voz e João com isso ficou fora de si, pela alegria: está no auge de seus desejos. É preciso, diz, que cresça e que eu diminua. Palavras admiráveis! Quem nos dera imitá-lo? Quem nos dera procurar a glória de Jesus, às custas da nossa?

Os discípulos de João ficaram com inveja por causa de seu mestre. Algo de semelhante nos pode acontecer. Pode acontecer que no mesmo bem sejamos invejosos uns dos outros, que vejamos com pesar que outro faça melhor que a nossa. Ah! Meus irmãos ou irmãs, sejamos invejosos pela glória de Jesus, nosso mestre único. Que todos nos abandonem para ir a Jesus; que a glória de Jesus aumente, sem cessar e que a nossa diminua: como São Jão deveremos por isso estar no auge da alegria.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Comentários ao Evangelho

Quando João estava na prisão, soube dos discípulos as obras do Cristo;mandou dois deles dizer-lhe: “Sois vós quem deveis vir, ou devemos esperar outro?” O fim de João era curar os discípulos da má disposição em que estavam, com relação a Jesus e dar-lhe ocasião de reconhecer, por eles mesmos, que era verdadeiramente o Messias, que esperavam, segundo o testemunho que lhes tinha dado. Esses homens foram ter com Jesus e disseram-lhe: “João Batista mandou-nos dizendo: sois o que deve vir ou devemos esperar outro?” No mesmo instante ele curou vários doentes de suas chagas, bem como libertou alguns possessos do demônio e grande número de pessoas e deu a vista aos cegos. E respondendo disse: “Ide, contai a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e o Evangelho a boa nova, é anunciada aos pobres. E bem-aventurado o que não se escandalizar de mim“.

Sua resposta mostrava a realização destas palavras de Isaías: Eis que deve vir Deus mesmo e ele vos salvará. Então serão abertos os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos; então curvar-se-á como um cervo coxo e será livre a língua dos mudos. Jeová enviou-me para pregar o Evangelho aos pobres. Acrescenta uma advertência para eles e para os judeus de não se escandalizarem, se se chocarem nele, pedra angular, fundamento de salvação para uns, mas pedra de escândalo para outros.

Depois que os enviados partiram, Jesus se pôs a falar de João à multidão: “A quem fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Mas a quem fostes ver? Um homem molemente vestido? Eis que os que se cobrem de vestes preciosas e vivem nas delícias estão nos palácios dos reis. Mas a quem fostes ver? Um profeta? Sim, eu vos digo e mais que um profeta. Pois dele está escrito: eis que envio meu anjo, diante de tua face, o qual preparará a estrada por onde deves caminhar. Na verdade, eu vos digo, entre os que nasceram de mulher não há profeta maior do que João Batista; mas aquele que e menor no reino de Deus é maior do que ele. Era Jesus mesmo menor que João na idade, mas maior em tudo o mais. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus sofre violência e os violentos o arrebatam. Pois até Jesus, todos os profetas e a lei profetizaram; mas ele mostrou a realização. E se o quereis ouvir, é ele, Elias, que deve vir. Quem tem ouvidos, para ouvir, ouça.

Martírio de São João Batista - Revista Católica Arautos do EvangelhoHerodes, o Tetrarca, tinha mandado prender João e o acorrentar na prisão, por causa de Herodíades, mulher de Filipe, seu irmão, a quem tinha desposado; porque João disse a Herodes: Não vos é permitido ter a mulher de vosso irmão. Herodes queria fazê-lo morrer; mas temia o povo, porque se tinha a João por grande profeta. Entretanto, armava-lhe ciladas e o queria matar, mas não podia, porque Herodes, que temia João, sabendo que era homem justo e santo, fazia-o conservar, agindo mesmo em muitas coisas por seu conselho e escutando-o de boa vontade.

Por fim, chegou um dia favorável: o do nascimento de Herodes, no qual ele deu um banquete aos príncipes, aos tribunos militares e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades dançou diante de Herodes e de tal modo lhe agradou e aos que estavam à mesa, que ele lhe disse: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou: Eu te darei tudo o que me pedires, meso que seja a metade de meu reino. Ela saiu e foi falar com sua mãe. Que pedirei? Sua mãe respondeu-lhe: A cabeça de João Batista.

Voltando imediatamente com grande ânsia para a sala, onde o rei estava, ela fez-lhe o pedido, dizendo: “Quero que me deis agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Batista.” O rei ficou muito aflito; entretanto, por causa do juramento que tinha feito e daqueles que estavam à mesa, com ele, não aquis contristar, com uma recusa. Assim, tendo chamado um de seus guardas, ordenou-lhe que trouxesse a cabeça de João numa bandeja. E o guarda cortou-lhe a cabeça na prisão e a trouxe numa bandeja; deu-a à moça e a moça a entregou à mãe.

Os Apóstolos viam na sorte de São João um comentário falante do que Jesus lhes acabava de dizer sobre os obstáculos que encontrariam no mundo. João tinha vindo anunciar a paz, reconciliar os pais com os filhos e prepará-los para a vinda de Cristo. O povo crê na sua palavra e o reverencia como a um profeta; mas os fariseus dizem que ele é possesso do demônio.

O tetrarca da Galiléia Herodes Antigas, considera-o um justo e um santo, mas tem medo, porque aquele santo repreende-o de seus crimes, em particular de seu incesto. Herodes tinha desposado a filha de Aretas, rei dos árabes, mas tendo visto Herodíades, mulher de seu irmão. Herodes Filipe, concebeu por ela uma paixão criminosa e prometeu-lhes despedir a primeira mulher para desposá-la. A lei de Moisés ordenava ao irmão desposar a viúva do irmão falecido, sem filhos. Mas Herodíades não era viúva, o marido ainda vivia, e tinha, dentre outras, uma filha, Salomé a dançarina.

Era então, sob todos os aspectos, um enorme escândalo. Ademais, uma guerra surgiu entre Arestas e Herodes, onde os judeus sofreram sangrenta derrota. João defendia a causa de Deus e a causa da humanidade, quando disse: Não vos é permitido ter a mulher de vosso irmão. O justo é posto na prisão pelo culpado. Herodes teria querido fazê-lo morrer imediatamente: uma coisa, porém, lhe impedia, o temor do povo. Chegou a festa de seu aniversário, dia de regozijo e de graças: estava sentado no banquete, entre prazeres; uma moça, a mesma cuja honra as censuras de João tendiam a vingar, recebeu a promessa de obter tudo o que lhe pedisse.

Pedirá talvez a liberdade de João, seu vingador, seu benfeitor. Ela quer sua cabeça, entre outras iguarias da mesa. Ao público, teve-se o cuidado de dizer, como vemos no historiador Josefo, que isso se tinha feito por razões de estado, por medidas de alta política, para a segurança do reino, ao passo que era apenas um assassínio em favor do adultério e do incesto. E eis a história de todas as oposições, que o Evangelho ou a verdade encontram no mundo.

Os discípulos de João, tendo sabido de sua morte, vieram buscar-lhe o corpo e o puseram num túmulo, Depois, foram contar a Jesus o que tinha acontecido.Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Histórias para crianças - História de Fé


Fonte:

Arautos.org - Associação Arautos do Evangelho do Brasil - Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica