O Batismo do Senhor


Batismo do Senhor - Comentário ao Evangelho - Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica

Duas figuras máximas se encontram: o Precursor e o Messias. Quem foi o Batista e por que quis Jesus ser batizado?

 

O Batismo do Senhor

 

 

João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-Lhe a correia do calçado. Eu vos batizei com água; Ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”. Ora, naqueles dias veio Jesus de Nazaré, da Galileia, e foi batizado por João no Jordão. No momento em que Jesus saía da água, viu os céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre Ele. E ouviu-se dos céus uma voz: “Tu és o meu Filho muito ama­do; em Ti ponho minha afeição” (Mc 1, 6-11).

No trecho do Evangelho de domingo, 10 de janeiro, ti­ra­do de São Marcos, temos o relato do batismo mais sim­bólico de toda a his­tória. É interessante conhecer preli­mi­narmente o fundo de quadro em que se passou esse tão significativo fato.

 

Uma voz clama no deserto

 

Cortando a antiga terra de Israel de norte a sul, o rio Jordão devia sua im­portância aos acontecimentos his­tó­ricos que transcorreram ao longo de seu curso, mais do que ao fato de ser elemento indispensável para a ma­nu­­ten­ção da vida naquele árido ter­ri­­tó­rio.

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Fora ele palco de muitos milagres e assistira a cenas grandiosas, nas quais brilhara a justiça de Deus. Con­tudo, por volta do ano 28 de nossa era, o que ocorreu ali superava de longe todo o passado. João, filho do sacerdote Zacarias, deixou seu isolamento no deserto e passou a per­correr a região do rio, “pregando o batismo de arrependimento para a remissão dos pecados” (Lc 3, 3).

A corroborar sua autoridade mo­ral, tinha o Batista sua vida de penitente do deserto, extraordinariamen­te santa e mortificada: “Andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de cou­ro em volta dos rins, e alimenta­va-se de gafanhotos e mel silvestre.” Acres­cia-lhe a reputação seu nasci­men­to milagroso, de muitos conhecido.

Mais ainda: sabido era entre o povo eleito que fora profetizada a vinda de um precursor do Messias: “Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: ‘Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’” (Lc 3, 4).

Suas exortações partiam, assim, de alguém com todas as credenciais de autenticidade para conduzir à con­ver­são.

 

Grande comoção em Israel

 

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Havia cerca de 400 anos que ne­nhum profeta fazia ouvir sua voz em Israel.

Nada mais explicável, pois, do que o alvoroço causado por São João Ba­tista. De todos os lados afluíam multidões para ouvi-lo. Vendo-as diante de si, ele as admoestava, e suas pa­la­vras calavam fundo nas almas, levando muitas ao arrependimento: “Di­zia ele: Fazei penitência porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 3, 2).

Símbolo da purificação da cons­ciên­cia, necessária para receber esse “reino dos céus” que estava “próximo”, o batismo conferido por São João con­firmava as boas disposições de seus ouvintes. “Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão”, conta São Mateus (3, 6).

Israelitas de todas as classes acorriam ao profeta da penitência, dispos­tos a purificar o coração. Entretanto, havia também os opositores. Sadu­ceus, fariseus e doutores da lei, que o viram inicialmente com bons olhos, não demoraram a votar-lhe pro­fun­da antipatia. Incomodados com sua extraordinária influência, ir­ritados com as pregações, nas quais condenava os vícios em que eles incorriam, passa­ram a agir contra João. Questio­na­ram seu direito de batizar e lhe pre­pa­ra­ram armadilhas. Demons­tran­do gran­de sagacidade, São João não se dei­xou enlear.

Inexorável para com os hipócritas e os soberbos, o profeta mostrava-se doce com os sinceros e os humildes. “Preparai-vos!”, repetia incansavel­men­te, “abri a via do Senhor!”

Apareceram-lhe discípulos, que o assistiam em seu ministério, e que passaram a constituir um modelo de piedade mais fervorosa.

Enfim, sua pregação produzia um grande movimento popular rumo à virtude, como nunca se vira na his­tó­ria de Israel.

 

Encontro com o Messias

 

A missão do Precursor era pre­pa­rar os caminhos do Messias. Vivia, por­tanto, na expectativa do encontro com Ele.

Não esperou muito tempo. Certo dia, notou a presença de Jesus no meio dos peregrinos. Tomado de sobrenatural emoção, inclinou-se para o recém-chegado, esquivando-se de Lhe dar o batismo: “Eu devo ser batizado por ti e tu vens a mim!”

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Respondeu-lhe, porém, Jesus: “Dei­xa por agora, pois convém cum­pramos a justiça completa”. Obediente, São João O imergiu no Jordão.

Logo que saiu da água, Jesus se pôs a orar. Então o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Ele na forma de uma pomba. “E ouviu-se dos céus uma voz: Tu és o meu Filho mui­to amado; em ti ponho minha afei­ção”.

 

Missão encerrada

 

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Algum tempo depois de batizar o Messias, São João caminha para o martírio, deixando a cena histórica, como ele mesmo havia predito: “Importa que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30). Entrara em cena o Salva­dor, estava cumprida a missão do Pre­cursor. Restava-lhe apenas o derra­dei­ro ato de sua grandiosa vida: o mar­tírio.

Conforme afirma São Tomás de Aquino, “todo o ensinamento e a obra de João eram preparatórias da obra de Cristo, como a do aprendiz e do ope­rário inferior é preparar a ma­téria pa­ra receber a forma que há de introduzir o principal artífice”.

Os grandes artistas tiveram apren­dizes que pintaram as partes menos importantes de seus quadros, ocupan­do-se eles apenas dos aspectos essen­ciais. Também os grandes enta­lha­do­res tiveram auxiliares que afia­vam as ferramentas, limpavam o ate­liê, fa­ziam as compras das madeiras apropriadas, etc.

Assim foi o trabalho de São João, preparando a vinda de Nosso Senhor.

Diante da altíssima vocação do Ba­tista, os Doutores da Igreja expri­mi­ram sempre grande admiração. São Tomás de Aquino, por exemplo, co­lo­cava João entre os profetas do Novo Testamento. Se o considerás­se­mos do Antigo — dizia o Aquinate — seria maior que Moisés.

Já São Francisco de Sales vê João como profeta do Antigo Testamento, a última luz da Lei mosaica e — diz sem titubear — a maior.

De qualquer modo, a grandeza de João era tal que o próprio Jesus declarou ser ele mais que um profeta, acrescentando este elogio supremo: “Entre os nascidos das mulheres, não veio outro ao mundo maior que João Batista” (Mt 11, 11).

 

Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Comentários ao EvangelhoPor que Jesus quis ser batizado?

 

O batismo conferido por São João não era da mesma natureza que o Ba­tismo sacramental, instituído posteriormente por Nosso Senhor Jesus Cristo. Provinha verdadeiramente de Deus, mas não tinha o poder de conferir a graça santificante. O próprio Batista pôs em realce a diferença: “Eu vos batizo na água, mas eis que vem ou­tro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de lhe desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3, 16).

O efeito do batismo de João consistia num incentivo ao arrependimen­to dos pecados, explica São To­más de Aquino.

Ora, em Jesus não havia sequer som­bra de pecado, nem poderia ha­ver, uma vez que Ele era o Homem-Deus. Não tinha, portanto, matéria para arrependimento e penitência. O que explica, então, que Ele tenha que­rido ser batizado?

 

Sujeitar-se à condição humana

 

Várias são as razões dadas pelos Padres e Doutores da Igreja

Eis uma delas: quando o Verbo se fez Homem, Ele quis se sujeitar às leis que regem a vida humana. Por exemplo, obedeceu às leis que estavam em vigor entre os judeus, sen­do apresen­tado no Templo após seu nascimento, sofrendo a circuncisão, e cum­prin­do os ritos da Páscoa judaica. Assim, quis também receber o batismo peni­tencial de João. Perdido no meio da multidão, Jesus — ino­cente — submeteu-se a um rito destinado ao pe­cador: “Convém cum­pra­mos a justiça completa”, justificou-se Ele perante o profeta.

Comentando essas palavras, Santo Agostinho diz que Nosso Senhor “quis fazer o que ordenou que todos fizessem”. E Santo Ambrósio acres­cen­ta: “A justiça exige que comecemos por fazer o que queremos que os ou­tros façam, e exortemos os outros a nos imi­tarem pelo nosso exemplo”.

 

Purificar as águas

 

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Entre as dez razões enumeradas na Suma Teológica para o batismo de Jesus, São Tomás de Aquino coloca em destaque o objetivo da purifica­ção das águas.

Citando Santo Ambrósio, diz o Dou­tor Angélico que “o Senhor foi ba­tizado, não por querer purificar-se, mas para purificar as águas”. Desse modo, continua ele, as águas “purifica­das pelo contato com o corpo de Jesus Cristo, que não conheceu o pecado, ti­vessem a virtude de batizar”. E conclui citando o mesmo argumento, de São João Crisóstomo, de que Jesus “dei­xou as águas santificadas para os que, depois, deveriam ser batizados”.

Temos aqui um interessante pro­blema teológico-metafísico: por que razão Deus escolheu a água como ma­téria para o Batismo?

A água é um elemento rico em sim­bolismo. Por exemplo, é uma ima­gem da exuberância de Deus. Basta consi­derar que três quartas partes da superfície da Terra são cons­tituídas por água.

Também é símbolo de vida. É elemento essencial para a manu­ten­ção de todos os seres vivos. Quanto mais abunda a água numa região, maior é a quantidade de plantas e animais que ali se desenvolvem. Além disso, ela é o elemento preponde­rante da matéria viva, de modo tal que o próprio corpo hu­mano é composto, na sua maior parte, de água.

Podemos considerá-la também um símbolo da bondade, do carinho e da magnanimidade de Deus para com a humanidade. Agrada ao ser humano vê-la cair, em forma de chuva, cristalina, refrescante, tornando fértil o solo, favorecendo as plantações, limpando o ar.

Vista por outro prisma, tem ela uma potência descomunal de destrui­ção. Apesar de toda a técnica moder­na, e de um presun­çoso progresso que se julgou capaz de um dia conseguir dominar os elementos da natureza, os homens se es­pantam e se aterro­rizam com a força destruidora das águas. E ainda nisso ela é para nós um símbolo, o do poder onipotente de Deus.

Por sua capacidade de lavar, ela lembra a limpeza espiritual. Por diversas vezes a Sagrada Escritura assim a ela se refere, como no seguinte trecho: “Derramarei sobre vós águas pu­­ras, que vos purificarão de todas as vossas imun­dícies e de todas as vossas abomina­ções” (Ez 36, 25). Nessa pas­­sagem, o profeta Ezequiel prediz o ba­tismo de São João e, mais especial­mente, o Batismo sa­cramental, instituído por Jesus. Do mesmo modo, ele é referido por Za­carias, quan­do este diz: “Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os ha­bitantes de Jerusalém, que apagará os seus pecados e suas impurezas” (13, 1).

Nada mais conveniente, portanto, do que a água ser a matéria do Ba­tis­mo. E nada mais adequado que Deus encarnado ter querido puri­fi­cá-la pe­lo contato de seu sacratíssimo corpo.

 

Incentivo ao Batismo

 

Revista Arautos do Evangelho - Revista Católica - Baixar edição gratuita - Comentários ao EvangelhoOutro motivo, dos mais importan­tes, para o Senhor decidir sujeitar-se ao ritual do Jordão era estimular nos homens o desejo do Batismo sacramental.

A recepção do Batismo é  neces­sá­ria para a salvação, como demons­tram as palavras de Jesus a Nico­de­mos: “Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Rei­no de Deus” (Jo 3, 5). Pelo tom categórico da afirmação, ava­lia-se a importância desse Sa­cramento.

O batismo de João levava ao arrependimento dos pecados, mas não tinha o poder de perdoá-los. O Ba­tis­mo sacramental, instituído por Jesus Cristo, tem efeitos infinita­men­te maiores.

Adão transmitiu a todos os seus descendentes a culpa ori­ginal. O Sacramento do Batismo limpa a alma da man­cha desse pecado, confe­re a graça santificante, eleva o homem à condição de filho de Deus e abre-lhe as portas do Céu. Ele é a chave de todos os outros Sacramentos, in­dispensáveis pa­ra o homem cumprir com fidelidade a Lei de Deus.

Tal é a grandeza e a eficácia do Sacramento do Batismo.

 

Exortação que permanece até o fim do mundo

 

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”  (Jo 1, 29), decla­rou São João Batista a dois de seus discípulos, indicando Nosso Senhor Je­sus Cristo que passava.

São João Evangelista e seu irmão, São Tiago, que até então haviam se­guido fielmente o Batista, compre­en­deram que Jesus era Aquele ao qual deviam entregar suas vidas. E dei­xan­do seu antigo mestre, procuraram logo o Senhor, pedindo-Lhe permissão para O acompanharem e viver com Ele.

Pelos séculos dos séculos, essas pa­lavras do grande “profeta da peni­tên­cia” ressoarão no mundo, convidando todos os homens a também colocarem seus olhos no Divino Salva­dor, a se encantarem com a figura d’Ele e — como católicos fiéis — a seguirem seus mandamentos, até o momento em que forem chamados para estar de­finitivamente com Ele, na vida Eterna.