O órfãozinho e a marquesinha

Ao vê-lo a menina pensou: “Pobrezinho! Certamente está com fome… Mas, o que terá acontecido? Será que ele fugiu de casa e veio se esconder aqui?! Será talvez um órfãozinho? Em qualquer caso, é preciso ajudá-lo!”

Ao contemplar as colinas cobertas por um manto branco, tudo na natureza parecia cantar o solene dia que ia começar: 25 de dezembro! Mas, o que estava acontecendo? Era já quase meia-noite e não se ouvia tocar os sinos da matriz convocando os fiéis para a Missa do Galo…

Naquele ano, muitas igrejas foram fechadas, saqueadas ou até queimadas em toda a França. Reinava a tristeza no país, e o suave júbilo emanado da paisagem não parecia harmonizar-se com a soturna atmosfera daquele povoado, cujos habitantes estavam impedidos de comemorar o nascimento do Homem-Deus. O Natal só podia ser celebrado às escondidas, sem Missa e sem cânticos, pois muitos sacerdotes zelosos haviam sido martirizados…

Entretanto, bem longe de Paris, às margens do Rio Loire, a situação era um pouco diferente. No castelo da família La Roche, o marquês e sua esposa dispunham-se a festejar o nascimento do Menino Deus, bem como o de Thérèse, sua herdeira. Ela viera ao mundo três anos antes, exatamente no dia de Natal. Logo foi consagrada a Jesus Menino por sua mãe e recebeu como presente uma imagenzinha do Divino Infante.

Passou-se algum tempo sem que o nobre casal fosse incomodado por praticar sua Fé, mas certo dia um ruidoso bando de malfeitores começou a se fazer ouvir nas proximidades… Tomando rapidamente Thérèse nos braços, a marquesa se dirigiu ao salão junto com seus familiares, pronta a enfrentar os invasores. E prevendo o destino que a esperava, encomendou a uma de suas criadas o cuidado de sua filha.

Em poucos minutos a confusão tomou conta do castelo. Quebrando tudo o que havia pelo caminho, os agitadores chegaram até o lugar onde todos se reuniram. Em prantos e apertando fortemente contra o peito a imagem do Menino Jesus, Thérèse jogou-se no colo de sua mãe.

Inseguros e furiosos diante da dignidade daquela família, os bandidos arrancaram a pequena dos braços da marquesa e a lançaram nas mãos de uma das domésticas, dando-lhe ordem de levá-la embora. Para a menina era a despedida: seus pais dali seriam conduzidos à guilhotina.

Marie, a criada incumbida de cuidar da criança, não resistiu. Temendo sofrer a mesma sorte, optou por se acomodar aos ditames da Revolução. Casou-se com um ateu e mudou o nome de Thérèse para Jane, a fim de apagar qualquer indício de sua ancestralidade.

Corriam os anos e a menina, criada por seus pais adotivos num ambiente alheio a qualquer prática religiosa, sentia na alma um vazio que a impelia a procurar avidamente uma realidade superior…

Havia no sótão da casa um misterioso baú, no qual Jane estava proibida de mexer. Certo dia em que se encontrava sozinha, ela decidiu abri-lo… E qual não foi sua surpresa ao encontrar no seu interior um Menino vestido com roupas belíssimas! Era a imagem que seus pais lhe deram por ocasião do Batismo, da qual havia perdido toda lembrança. Marie ali a ocultara receosa de que alguém a profanasse e mais receosa ainda de que seu marido a descobrisse.

Ao vê-la, a marquesinha pensou: “Pobrezinho! Certamente está com fome… Mas, o que terá acontecido? Será que ele fugiu de casa e veio se esconder aqui?! Será talvez um órfãozinho? Em qualquer caso, é preciso ajudá-lo!”

Retirou-o do baú, sentou-o numa mísera cadeira, ofereceu-lhe um pouco de leite quente, perguntando:

— Qual é o seu nome? Tomando vida, a imagem lhe respondeu:

— Meu nome é Jesus. E o seu?

— Jane. Mas, por favor, conte-me como você foi parar neste baú…

— A história é muito longa. Fui dado como presente de Batismo à filha de uma família de marqueses, mas ela ficou órfã e nós dois fomos entregues aos cuidados de uma criada. Já faz quatro anos que isso aconteceu…

Quando ia indagar mais sobre a tal menina, Jane ouviu a voz de Marie entrando na casa e guardou rapidamente o Menino no móvel.

No dia seguinte, sem saber muito bem por que, Jane teve a ideia de oferecer-Lhe um bom jantar. Era um 24 de dezembro. À meia-noite, quando todos na casa dormiam, ela dirigiu-se pé ante pé até o sótão, abriu o baú e disse baixinho:

— Jesus, venha! Hoje você terá um jantar especial!

O Menino saltou ao pescoço dela e contemplou encantado as singelas iguarias que Jane tinha conseguido reunir para homenageá-Lo. E, enquanto comia, desvendou os mistérios do seu passado. Contou-lhe quem haviam sido seus pais, revelou-lhe seu verdadeiro nome, explicou- -lhe que ela também viera ao mundo num 25 de dezembro, e, para finalizar, entoou a melodia de uma conhecida música natalina que fez surgir no coração de Thérèse vivas lembranças da sua primeira infância.

— Quereis ir para o Céu comigo?

— Claro que sim! – respondeu – O que preciso fazer?

Conversaram brevemente e, a seguir, Thérèse saiu pelas ruas da cidade levando-O em seus braços enquanto cantava músicas natalinas. Vendo-a, muitos habitantes do povoado choraram, pois nem os mais valentes tinham coragem para proclamar sua Fé em tempos tão conturbados. Porém, poucos se converteram…

Tamanha ousadia não podia ser tolerada por quem havia se libertado da “tirania” e “superstição” cristãs. Cruéis revolucionários se precipitaram sobre a menina, arrancaram a imagem de suas mãos e mataram- -na a pauladas e golpes de faca.

O oferecimento da pequena tinha sido aceito; o sangue de Thérèse juntara-se ao do seu amado Jesus. As sublimes conversas que iniciaram na terra haviam de continuar no Céu, onde, unida ao coro dos Bem-aventurados, ela recebeu por missão defender e alimentar a inocência das crianças de todos os tempos.

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